Tenho uma criança a quem a psicomotricidade interessava. E agora?

O meu percurso profissional ainda é muito recente, e ainda consigo usar apenas os dedos de uma mão para saber há quantos anos letivos trabalho, de forma consistente, em clínicas e em escolas com as “minhas” crianças. Mas mesmo sendo o meu percurso tão curto, o reconhecimento da psicomotricidade tem crescido largamente e já é hoje comum ter professores que reconhecem o nome e a pertinência, assim como pais e outros membros da comunidade educativa.

Mas ainda assim, vários pais, professores, educadores ou mesmo instituições de atividades extra-curriculares, que reconhecem a nossa importância e que se lembram daquela ou da outra criança, ficam confusos sobre por onde começar para a criança ter acesso à psicomotricidade, e os obstáculos por vezes parecem tantos que o encaminhamento acaba por nunca acontecer.

Por isso, venho aqui contar aqui um pouco da minha experiência. Reforço muito que é a minha experiência e as áreas em que trabalho, ou seja, relacionado com a psicomotricidade em crianças em jardim de infância ou idade escolar, com um grande foco nas dificuldades de aprendizagem, nas necessidades educativas especiais e na saúde mental infantil, em contexto clínica privada, escola e domicílio.

Tal como tantos profissionais de saúde e educação, também nós temos um campo de intervenção enorme, com colegas na vertente educativa e de prevenção, colegas em instituições públicas, em SPSS e em públicos tão, tão variados. E todas essas vias são importantíssimas e legítimas para uma criança ter apoio. Contudo, não posso falar sobre elas, visto não serem a minha realidade. Por isso, venho trazer-vos o que conheço e as vias pelas quais me chegam crianças.

Gostaria de começar pela mais fácil: o domicílio. Muitas vezes neste caso os pais têm já alguma suspeita, algum diagnóstico ou alguma chamada de atenção por parte da escola, conhecem a psicomotricidade e faz-lhes sentido. Neste caso, encontram um profissional que esteja disponível e entram em contacto diretamente com eles, de forma a marcar uma avaliação inicial (a não ser que esta já exista realizada por um outro colega). Após a avaliação, existe normalmente uma reunião para discutir a pertinência do acompanhamento terapêutico e para estabelecer objetivos. Se tudo apontar para a necessidade de acompanhamento, o apoio pode começar no domicílio, consoante os objetivos e os horários combinados.

Esta modalidade pode também ser recomendada por algum médico do desenvolvimento ou de uma outra especialidade (pedopsiquiatria, entre outros) que acompanhe a criança. O domicílio tem várias vantagens, permitindo o trabalho também com a família e num ambiente que é familiar à criança e significativo. No entanto, pode não ser a resposta para todas as crianças. Algumas crianças apresentam uma maior dificuldade em estabelecer limites ou reconhecer o seu espaço privado como um espaço terapêutico. Nesse caso, o acompanhamento num espaço neutro será mais seguro para a criança e para o trabalho dos objetivos.

Neste caso, poderemos falar do acompanhamento em clínica. A clínica pode ser escolhida segundo vários critérios, como por exemplo, conhecer-se a clínica anteriormente, encaminhamento interno, conhecer o profissional que lá trabalha, entre outros. E mesmo o motivo de encaminhamento pode ser médico, por iniciativa dos pais ou por sugestão de professores. Neste caso existe também uma avaliação e reunião posterior para discutir objetivos e necessidades terapêuticas, começando o acompanhamento de seguida, consoante o acordado.

Neste caso, o espaço é puramente terapêutico, permitindo à criança dividir os vários espaços, reconhecendo a clínica como o seu local seguro. Contudo, é um espaço estranho onde não existe, ou existe muito pouco, paralelismo para o seu quotidiano. Desta forma é possível que o transfer do que está a ser trabalhado para a vida quotidiana não seja tão evidente, visto a criança reconhecer a clínica como um local estranho e sem algo de significativo que a ligue com a sua vida fora da clínica.

Por fim, muitos dos acompanhamentos que me são passados acontecem na escola. Neste caso os professores são a palavra chave. Os professores ou educadores que acompanham a criança sinalizam a criança, encaminhando para uma avaliação orientada para os aspetos assinalados, sempre com a aprovação dos pais ou cuidadores. Após a avaliação decide-se a pertinência do acompanhamento, as várias possibilidades de o fazer e ainda a disponibilidade da escola para receber a terapia.

Existem várias vantagens em ter o apoio na escola. Primeiro, a nível de horário e de disponibilidade, uma vez que a criança já está na escola, basta combinar um horário disponível, poupando a criança o tempo de deslocamento e o de encarar a terapia como algo fora ou extra. Ainda, a criança entende a escola como um espaço de aprender, estando propícia para tal, mesmo durante a terapia. E, finalmente, indo de encontro com o ponto anterior, é um espaço significativo para a criança, e como tal, facilmente o transfer é feito da sala terapêutica para o espaço envolvente, facilitando ainda a comunicação com os vários intervenientes.

Ainda assim, existem também desvantagens, sobretudo consoante o perfil da criança. Para começar, a criança fica mais exposta, uma vez que os colegas vêm criança a sair do seu ambiente, ou do seu recreio. Para algumas crianças esta experiência é mais complicada de gerir, podendo colocar a terapia em causa… Ainda, caso a vivência escolar não seja tão positiva, esse negativismo pode também ser levado para a sessão, minando a confiança a ser estabelecida. E finalmente, existe a questão logística, uma vez que uma escola tem a função primordial das aulas e que nem sempre é fácil encontrar um local que seja adequado às necessidades da criança.

Em qualquer uma das opções existe um caminho de diálogo a ser estabelecido com os vários intervenientes na vida da criança e existem vantagens e desvantagens. O importante a reter é que este é um caminho a ser talhado pelo terapeuta, pela criança, pelos pais e pelos restantes intervenientes, tendo sempre o interesse superior da criança em mente. Por isso não é, nem pode ser um espaço fechado, pelo contrário, é um trabalho de equipa para levarmos a criança sempre mais longe.

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Psicomotricista Ana Fonseca Félix, prazer!

Olá a todos de novo!

É verdade, estive algum tempo fora… praticamente um ano…

Por vezes é necessário afastar-nos e repensar-nos. Dizemos isso tantas vezes às nossas crianças: Pára, Pensa, Faz e Re-avalia.

No fundo, foi para isso que este ano de 2018 serviu: para eu parar algumas das minhas atividades, pensar o que fazia sentido, realizar novos objetivos e para agora re-avaliar para onde quero ir. E sim, esta página, que voltou por enquanto ao seu domínio inicial, é um dos sítios que quero presente futuramente.

Quando estava à volta das minhas resoluções de 2019 percebi que queria voltar este espaço, optimizar o mesmo e usar para algo maior. E nisto apercebi-me de algo fundamental: vocês não me conhecem.

Uma vez que quero cada vez mais que este seja um espaço aberto de diálogo, faz todo o sentido apresentar-me. Sou a psicomotricista Ana Fonseca Félix, muito prazer. Sempre fui uma apaixonada por crianças, desde que eu própria o era e sempre fui fascinada pela infância, pela educação e pela saúde. Quando estava no secundário, e na altura de escolher a minha profissão estava perdida.

Nesse verão trabalhei numa colónia de férias onde vi crianças que usavam palavras de uma forma incongruente com o que o corpo dizia. Crianças que se acalmavam com um abraço, mas que se zangavam com conversas. Crianças que queriam falar, mas não sabiam como. Crianças com corpos que se exprimiam, mas que tinham tanta dificuldade em exprimir-se.

E fui assim  tirar reabilitação psicomotora. No fundo,  o que eu queria era ser psicomotricista, abraçar a criança no seu todo e abranger a sua educação, a sua família e a sua saúde. Ser um braço direito e uma mão invisível.

Não me arrependo desta escolha. Tirei o curso na Faculdade de Motricidade Humana, tendo acabado em 2013 com distinção de melhor aluna. Mas não me chegava… os horizontes estavam ainda fechados e a minha curiosidade falou mais. Fui tirar o Mestrado para Paris para o Institut Supérieur en Rééducation Psychomotrice e onde aprendi que a minha profissão é necessária, importante e que ainda permite que o corpo nos ensine competências sociais e emocionais.

Já voltei em 2015 e já apresentei a tese em 2016. Desde aí foi um mar de experiências. Desde CERCI’s onde aprendi a respeitar a diferença e a importância da igualdade de oportunidades; desde o serviço de consultas da Faculdade de Psicologia do Porto, onde aprendi a importância de trabalhar com e para a família; desde escolas e escolas onde cada e toda a criança me deixou uma marca.

Hoje dou a cara por dois projetos: a Mente Brilhante e o Projeto SER. Sou psicomotricista dentro destas equipas e com o maior orgulho do mundo. Trabalho em escolas, em domicílios e em clínicas e cada um destes contextos tem tanto de rico como de desafiante. Aprendo todos os dias.

Sou ainda formadora, e de dia para dia tenho cada vez mais a ambição de passar mais a minha vivência e de aprender com quem quiser partilhar.

E será este esse espaço. Um lugar com textos semanais baseados em literatura recente, em experiências vividas e em conhecimento partilhado.

Aguardo-vos cá, prazer

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Sim, este é o meu trabalho

Queridos amigos,

Temos de ter uma conversa séria. Eu sei, desde cedo (demasiado) que nos dizem que temos de crescer, tornar-nos responsáveis, estudarmos muito, aprendermos o máximo, que é para um dia podermos trabalhar no mundo dos crescidos, vestir fatos e saltos altos, passar o dia atrás de um computador e seguirmos com a nossa vida. Eu sei disso e admiro muito a tua escolha, no entanto, não foi essa a escolha que eu fiz para mim.

Sabem, também eu estudei, tornei-me responsável e até hoje esforço-me ao máximo para aprender tudo o que posso sobre a minha profissão. A diferença foi que escolhi outro mundo, que na realidade nem é meu. Eu escolhi habitar o mundo da criança que tenho do outro lado, com tudo o que isso acarreta. Eu escolhi brincar com plasticina, fazer fortes e castelos, ser cavalo, ser dragão, ser monstro mau, ser cavaleiro andante, ser princesa, brincar com madeiras, com dominós e mikado. E vos garanto, não foi uma escolha fácil. Porque por cada vez que entro naquele mundo, não entro à força. Entro de forma pensada, estruturada e cuidada, pondo todo o meu corpo e todo o meu pensamento naquela criança e em como lhe posso ser útil.

Parece fácil não parece? Mas por trás de cada decisão que eu tomo e de cada palavra está uma aula, uma palestra, uma conferência, um livro ou um artigo. Está um estudo caso, uma revisão bibliográfica e estão horas de planeamento. Cada vez que brinco com plasticina aproveito para fazer uma letra e tentar generalizar um conceito; por cada vez que construo um forte estou a apostar na construção gnoso-práxica e na securização daquele espaço;cada vez que sou um cavalo, estabeleço uma relação terapêutica de cooperação com a criança; cada vez que sou monstro e sou dragão, esforço-me para ajudar a criança a construir a sua auto-estima e auto-conceito; cada vez que sou cavaleiro ou princesa, crio um universo imaginário onde a criança se supera e se constrói; cada vez que brinco com madeiras ou dominós, aposto na capacidade de planeamento e de construção, promovendo as funções executivas. Afinal, não é assim tão fácil pois não?

Não me leves a mal querido amigo. Eu também entendo que este nome a que eu chamo de profissão (se não mais ainda) que é a psicomotricidade é difícil, e eu irei explicar-te a génese deste nome todas as vezes que forem necessárias. Até tu entenderes que naquela sala, o pensamento e o movimento não trabalham apenas em conjunto, são antes um só. E eu trabalho, conscientemente e de forma direcionada nessa harmonia, sabendo que este caminho vai ter impacto em cada parte da vida da criança.

Sabes, não somos assim tão diferentes: estudamos, trabalhamos, com esforço para ser melhores e para fazer mais. A diferença, é que eu faço-o a brincar. Já viste a minha sorte?

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Eu sou mais que o meu diagnóstico

Querido adulto,

Precisamos urgentemente de falar. Posso não ser muito crescido e pode parecer que passo mais tempo a brincar que a trabalhar (se bem que ainda não notei muito a diferença que tu tanto gostas de referir), mas já reparei em algumas coisas. Já reparei que achas que faço coisas de forma diferente e já reparei que sempre que estás comigo esforçaste por me comparares aos meus amiguinhos. Até aqui tudo bem. Eu gosto muito deles e confio em ti, e por isso, acredito que se o fazes é para meu bem.

Agora adulto, o que não pode acontecer é esqueceres-te do meu nome para me começares a chamar uma data de coisas complicadas que não são o que eu sou. Por algum motivo que que eu não consigo entender, desde há uns tempos para cá que eu perdi a minha identidade para passar a ser o PHDA ou hiperativo, passar a ser o PEA ou asperger, passei a ser o paralisia cerebral ou tantas e tantas outras que podiam caber para aqui. Diz-me adulto, se eu te vejo sempre ansioso ou mal disposto devo também passar a chamar-te o rabugento, o mal-encarado ou o stressadinho?

Eu sei e compreendo que tu e todos os outros adultos tenham necessidade de dar um nome ao que eu faço, sobretudo quando há outros meninos que crescem e que se comportam da mesma forma do que eu. Mas parem de me reduzir a isso. É que a partir do momento em que vocês adultos se concentram só nessas palavras, é como se elas crescessem e crescessem, tanto e tanto que começam a sugar tudo à minha volta. A minha vida inclusivé.

É como se de repente fosse causa e consequência. É como se fosse desculpa e sentença. É como se eu deixasse de ser eu para ser uma palavra que nem sei o que significa ao certo. Eu sei que esse nome tem um significado, eu sei que esse nome tem um impacto e sei que ao me darem esse nome, no fundo, querem apenas ajudar-me e acompanhar as minhas dificuldades.

Mas lembra-te querido adulto, eu continuo aqui. Eu continuo a ser eu. E muito mais importante, eu sou e sempre serei muito mais do que esse nome. Eu irei aprender, eu irei crescer e eu irei surpreender, muito além do que esse diagnóstico ou do que qualquer adulto expecte de mim.

Por isso adulto, fica lá com o teu diagnóstico se isso te ajudar a ti e aos outros adultos de alguma forma. Mas quando olhares para mim, olha mesmo. Porque eu continuo cá, com diagnóstico ou não.

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Imagem retirada de  http://www.ufrgs.br/portaldapesquisa/conhecimentoesociedade/?p=305

Querida adulta, no chão também se trabalha

Era uma vez uma menina. Já era uma menina crescida, pelo menos, já era uma menina que andava na escola dos grandes: tinha aulas, trabalhos de casa e estava agora a aprender a escrever, a contar, e tantas outras coisas sobre este maravilhoso mundo. No entanto, esta menina achava este mundo um sítio muito assustador. Sabem, a menina via perigos em todos os cantos e em todos os lugares, o que tornava muito complicado conseguir estar concentrada ou brincar livremente. Sobretudo, era difícil confiar em alguém.

Quando me falaram a primeira vez desta menina, falaram também da impossibilidade que era trabalhar com ela. E descreveram com aquelas palavras feias que os adultos gostam tanto de usar: “ela amarra o burrinho”, “ai, amua de uma maneira, que fica impossível”, “ela fecha-se no mundo dela… a partir daí, não há nada a fazer”. Por isso, ao conhecer esta menina, ia acompanhada de vários receios e ansiedades.

A porta da sala abriu-se, e mal entrámos, após algumas conversas triviais de apresentação, notei que a menina estava constantemente a olhar para debaixo da mesa, mesmo enquanto falava comigo, sempre num tom tímido e educado.

“Que estás a pensar? Passa-se alguma coisa de baixo da mesa?” – indaguei eu.

“Não, nada, era apenas um plano que eu estava a imaginar.” – respondeu a menina a medo.

“Ah, mas se era um plano, eu quero saber! Tenho certeza que era uma óptima ideia!”

Ainda eu não tinha acabado a frase já a menina se tinha escondido debaixo da mesa. Claro que nem pensei duas vezes, e juntei-me a ela.

“Então, e agora?” – sussurrei.

“Agora, estamos escondidas, caso apareça alguém mau.”

Foi um momento de pura magia. Para uma menina para quem confiar e relacionar-se era um desafio, partilhar comigo o seu plano, o seu esconderijo e aceitar-me lá era um salto inimaginável para um início de relação terapêutica. Estava em êxtase com as possibilidades que se abriam perante aquele plano. Nisto, o principal medo da menina aconteceu… Entrou “alguém mau” na sala: uma adulta.

“Estão debaixo da mesa? Não me diga que a menina já começou com as coisas dela! Vá, toca a sair que isto é para trabalhar” – disse com um sorriso reprovador, nem tentando controlar o seu tom de voz.

Pois querida adulta, acontece que no chão também se trabalha. E tantas, tantas vezes se trabalha mais no chão do que sentada numa cadeira, voltada para uma mesa. Inúmeras vezes as crianças são apelidadas por estes adultos como difíceis, mimadas, ou impossíveis de trabalhar, quando na realidade o que se passa é que as necessidades das crianças não são iguais às expectativas dos adultos. E aí, ao invés de se alterar as expectativas, continua-se constantemente a bater na mesma parede, aumentando a frustração tanto para a criança, como para o adulto.

É como que se só houvesse um objetivo e uma forma de trabalhar, como se as crianças não fossem em si diferentes e como se nós adultos não soubéssemos ver essa diferença. É que sabe, querida adulta, por vezes o chão é o ringue de combate, o campo de batalha, a casa escura, o fantasma escondido, o medo e a criatividade juntas. Por vezes o chão é o esconderijo, o porto seguro, a gruta de onde se parte para a conquista do mundo. E o adulto que se recusa a ver este trabalho, em prol de uma secretária, de um livro e de objetivos pré-estabelecidos por cumprir, está condenado a nunca encontrar a ponte para o mundo desta criança.

217849066_f011b26437_z-2Fonte imagem: http://www.ebc.com.br/infantil/para-pais/2014/11/crianca-com-medo-como-lidar

Não me falem, mostrem

Caros adultos precisamos de falar. Parece que ao fim de algumas décadas neste mundo se esqueceram de como é não saber. Parece que já sabem tanto que começaram mesmo a acreditar no provérbio “faz o que eu digo, não faças o que eu faço”. Mas não adultos, nós não conseguimos fazer o que vocês dizem, sem fazer o que vocês fazem. Nós nada sabemos do mundo ainda, quanto mais interpretar palavras sem ações que venham junto com elas. Adultos, têm que entender que nós somos pequenos seres que acabaram de chegar a este vosso mundo, sobre o qual tudo sabem, mas onde tudo é novo para nós.

Por isso não me digam que o mundo é feito cores maravilhosas, mas mostrem-me livros de desenhos vibrantes; não me falem dos sabores existentes, mas mostrem-me as frutas saborosas que possa provar; não me falem do cheiro da maresia, das flores ou do campo, mas levem-me antes ao oceano, às rosas e à terra. Não me falem das voltas na barriga que se sentem, mas deixem-me saltar para cima e para baixo, dar cambalhotas e rodopios, para eu saber o que é sentir o meu corpo a mexer. Não me falem da importância do ler e do contar, mas mostrem-me como o posso aprender pelo meu corpo e ajudem-me a usar esses conhecimentos de uma forma que me faça sentido, a mim criança, não a vocês adultos. Não me falem da importância de estar quieto porque vocês querem, mas mostrem-me o caminho para aprender a regular-me, e conseguir correr muito quando posso e a acalmar quando é preciso.

Caros adultos, não me falem do que eu devia fazer para vos ajudar ou facilitar as tarefas, mas mostre-me o mundo de possibilidades que há lá fora. Não me digam que têm pressa e que eu tenho de me despachar, quando eu ainda agora aqui cheguei e tudo é novo para mim. Não me roubem o prazer de quem ainda está a fazer pela primeira vez e de quem ainda descobre aos poucos as maravilhas nas pequenas coisas.

Antes, caros adultos, estejam ao pé de mim. Estiquem a vossa mão se me virem a fraquejar, aparem-me quando eu cair e soprem para aquele joelho esfolado de quem também está a aprender o que é a dor. E no fim, ajudem-me a levantar e a partir para uma nova aventura. É que afinal, só se descobre o mundo pela primeira vez uma vez.

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http://dicasdefarmaceutica.blogs.sapo.pt/dia-da-crianca-vamos-brincar-21655

“Psicomotoquê?”

Psicomotorista?

Psiconutricionista?

Psicomotrocionista?

e tantos outros “psicomotoquês” que me chamam todos os dias…

Ao início enervava-me. Fazia cara feia e fazia questão de investir num tutorial de um-para-um na tentativa de cravar esta palavra na cabeça de todos os que ousavam fazer-me essa questão. Por vezes crianças inclusive.

Depois lembrei-me, eu há 10 anos atrás sabia o que era a psicomotricidade? Reabilitação psicomotora dizia-me alguma coisa? E psicomotricista era mais do que um nome complicado de dizer?

Não, há 10 anos atrás era apenas uma jovem confusa, como tantas outras, que via o tempo a voar no secundário, ao mesmo tempo que a porta para escolher a profissão que iria definir o resto da minha vida se aproximava.

Naquela altura, e nos anos que se seguiram até ser estudante da FMH, tinha poucas certezas… Sabia que gostava de crianças. Sabia que gostava de dançar, de teatro e de expressão. Sabia que gostava de saber o que os outros pensavam, e sobretudo, como eles pensavam. Sabia que queria fazer a diferença. Sabia que queria ajudar. E acima de tudo, sabia muito, muito bem que queria tudo menos um trabalho num escritório fechado das 9h00 às 18h00.

Desta forma, peguei no pouco que sabia e pus mãos à obra. Por um lado, a procurar as saídas que existiam e aquela em que eu melhor me enquadrava. Por outro lado, trabalhando com crianças em voluntariado. E foi aqui que a questão virou, e virou muito.

Neste tempo de exploração trabalhei com crianças fantásticas e que me mostraram um mundo. Entre estas mais variadas crianças, conheci algumas com dificuldades, que não aprendiam da mesma forma que as outras, que tinham muitas dificuldades em memorizar, que tinham uma postura que por si só afastava, que se mexiam tanto, tanto que era impossível falar com elas. Crianças que não conseguiam pôr por palavras tudo o que lhes ia na cabeça (e sobretudo no corpo), crianças com dificuldades em parar, crianças que por outro lado, não se conseguiam mexer como o seu corpo gostaria. Crianças que o corpo não fazia o que a cabeça mandava. Crianças que a cabeça não conseguia acompanhar o corpo.

Conheci crianças que gritavam por ajuda, mas gritavam para um corredor sem fim, onde a ajuda não lhes chegava. Reparem, eram crianças que precisavam desesperadamente de alguém que as visse como um todo, e que trabalhasse com elas, por elas.

E aí apareceu a psicomotricidade, ou curso de reabilitação psicomotora na altura. A psicomotricidade foi, e continua a ser, muito mais que um curso, ou que uma profissão. A psicomotricidade é um pedido, é uma resposta, é uma necessidade. É a esperança que o corpo e a cabeça consigam falar e entender-se e, quem sabe, conseguirem mesmo perceber que no fundo são o mesmo. Porque no fundo, são mesmo.

Por isso, hoje em dia já não reviro os olhos ao “psicomotoquê?”. Hoje em dia, explico o melhor que sei este mundo maravilhoso que escolhi viver.

E para os mais pequenos? Sou apenas a terapeuta do brincar.

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Ela sabe mãe, ela sabe…

Hoje trago-vos uma história. A história de uma menina que tinha muitas dificuldades quando a conheci… Não conseguia ficar muito tempo a fazer a mesma coisa, saltava com imensa facilidade de tarefa em tarefa, não atava os sapatos, mal conseguia contar e os desenhos dela não passavam de rabiscos. Mais importante, esta menina, por vezes, tinha um bichinho que a fazia fazer coisas. Coisas como puxar os cabelos dos outros, morder, empurrar ou beliscar. A menina não fazia por mal, era o bichinho.

Mas era uma menina linda, e ao fim de alguns meses de trabalho, começou a conseguir terminar tudo o que lhe era pedido, os atacadores, embora atabalhoados, já não eram seus inimigos, começou a contar até 10 (até 10, vejam só!), e começou a conseguir desenhar pessoas e letras. E os impulsos? estes aos poucos e poucos foram desaparecendo! Eu e a mãe estávamos extasiadas de tantas vitórias e muito orgulhosas do que a nossa menina estava a conseguir alcançar!

Certo dia, aos poucos, o bichinho foi aparecendo de novo. Não foi de todo claro ao início. Começou por uma mordida sem sentido. Depois por acender e apagar as luzes até eu ter de fazer cara fechada. De seguida, voltou a puxar cabelos. Quando dei conta, ter a menina sentada era impossível, todo o corpo dela começou a ficar tenso como um bloco e não tardou até o bichinho ter novos comportamentos de oposição e não deixar a menina lembrar de tudo o que já tinha aprendido.

Quando a situação já estava verdadeiramente descontrolada, tive de falar com a mãe para tentar perceber o que se passava. A princípio a mãe dizia que nada poderia fazer prever esta alteração na menina, mas continuando a conversa sobre a mãe, e não sobre a menina, foi possível ver que estavam a acontecer alterações várias. Figuras da família que eram ausentes e que tinham reaparecido e mesmo idas a tribunal.

-“Mas é impossível que a menina saiba! Nunca falei de nada à frente dela, e sempre que tive de ir a algum sítio, foi durante o horário escolar! Se existe alguma alteração, tenho certeza que não tem nada com isto! Ela nem sabe”.

Mas sabe mãe, ela sabe. No fundo, eles sabem sempre. Claro que os pais gostam de acreditar que apenas ele se preocupam com os filhos, mas se ao menos eles soubessem que os filhos também se preocupam, e muito com eles… Os filhos sentem os pais, não só pelo que ouvem, mas sobretudo pelo que vêm e pelo que sentem. Por aquele toque mais nervoso, por aquele riso mais tenso, por aquela resposta com menos paciência. Os filhos são pequenas esponjas que embebedam tudo à volta, dos pais também. Aliás, dos pais sobretudo. Por isso, não é preciso grandes conversas ou explicações para uma criança saber quando não está tudo bem. Os filhos podem não entender o que é, o que se passa ao certo, mas entendem que os pais e as mães, essas figuras mágicas de tanto amor, não estão bem. E a forma dos filhos reagirem isso é por comportamento, a tantos níveis que seria impossível numerar todos. Os filhos refletem os pais, no bom e no mau. Nunca nos podemos esquecer disso.

Psicomotricista Ana Fonseca

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Nota: o caso contado para ilustrar a situação, apesar de baseado em casos clínicos reais, não reflete nem conta nenhuma história verídica. Qualquer semelhança com um caso real será coincidência.

Obrigada

Celebra-se hoje o dia do obrigado e senti que não devia deixar em branco. A realidade é que não dizemos esta palavra vezes suficientes. Entre o nosso quotidiano e os nossos afazeres, tomamos muito do que nos rodeia por garantido e esquecemos de mostrar o nosso apreço pelos pequenos esforços que aqueles que nos rodeiam fazem para tornar o nosso dia um pouco melhor. Todos os pais, professores e terapeutas sabem a importância desta palavra para com os nossos filhos, colegas e professores, mas muitas vezes os agradecimentos ficam dentro da nossa cabeça, como que se o outro o soubesse.

Por isso, hoje, quero aproveitar este dia. É que no fundo, a minha maior gratidão é poder fazer o que mais me apaixona, todos os dias. Por isso, quero agradecer. Quero agradecer a todos os professores, que se esforçam e que se levantam, dia após dia, sempre com uma esperança e uma fé renovada, nas suas crianças, nos seus alunos. Quero agradecer-lhes por não desistirem. Quero agradecer-lhes por tentarem inovar num sistema tão fechado, e por tantas vezes verem oportunidades onde outros viam apenas dificuldades. Quero agradecer-vos pela profissão tão digna que têm e pelo vosso trabalho, que sei que não é fácil.

Quero agradecer aos meus colegas terapeutas. Psicomotricistas, terapeutas ocupacionais, terapeutas da fala, psicólogos, fisioterapeutas e tantos, tantos outros. Por todos os momentos mais difíceis onde o sorriso e a esperança não desvanecem. Por todas as alegrias que surgem e por cada conquista vossa, nossa e de cada um. Quero agradecer por todo o trabalho de equipa, por verem que sozinhos é mais difícil, mas que quando estamos juntos, o céu é o limite. Obrigada pela vossa partilha e pelo vosso conhecimento. Sou tão mais rica por partilhar crianças extraordinárias com outros colegas igualmente extraordinários, e é tão bom saber que a vida destas crianças é preenchida por sorrisos tão lindos e tão nobres.

Quero agradecer às famílias, e se me permitem, com um carinho especial aos pais e às mães. Este agradecimento não é complicado nem pomposo. É bastante simples, para dizer verdade. Quero agradecer-vos por darem o vosso melhor. Eu sei que passamos a maior parte do tempo a puxar para ver quem faz melhor, e tantas, tantas vezes em julgamentos fúteis que em nada ajudam. É uma realidade a que raramente escapamos. Mas acreditem pais, mães, tios e avós, nós sabemos que cada um está a fazer o melhor que pode. A vossas crianças também o sabem, e também sei que o agradecem. Aos pais que confiam as suas crianças, o seu bem mais precioso, comigo 1 ou 2 vezes por semana, um agradecimento de coração. Sei o peso e a responsabilidade que me entregam semanalmente, e sou-vos eternamente grata por isso.

A todas as crianças. As que já se cruzaram no meu caminho, as que ainda o passam todas as semanas. A todas as crianças que já o foram comigo e que hoje em dia já o deixaram de ser. Muito obrigada por terem deixado que fizesse parte da vossa história. Obrigada por me ouvirem e por me aceitarem. Acima de tudo, obrigada pelas valiosas lições que me ensinaram, que foram tantas, tantas. Sabem crianças, sinto que não vos agradecemos o suficiente. Sinto que passamos tantas horas a discutir e a argumentar com vocês, sobre vocês e por vocês, que nos esquecemos do importante: agradecer-vos por fazerem parte da nossa vida, e por a embelezarem com inocência, alegria, vitória e superação, todos os dias.

Sei que os agradecimentos não podem nem devem ser feitos uma vez por ano. Sei que este processo devia ser repetido todos os dias. Sei que na relação com a realidade nem sempre é fácil. Mas quem sabe, se esta palavra, esta única, pequena e simples palavra, não tornaria tudo mais simples. Por isso, a todos, obrigada.fullsizerender