O que pensarão as crianças dos adultos?

Quando é que ficou tão complicado ser criança? Quando é que o simples facto de se ser criança se tornou ciência onde se erra e acerta? Quando é que a infância passou a ser preto no branco?

Aflige-me pensar nisso hoje em dia. A pressão, a expectativa e e a idealização de que as crianças hoje são alvo assemelham-se a trincheiras. Vejo pais, professores, terapeutas e outros a atacarem-se numa medida de quem tem mais razão, passando completamente ao lado da felicidade e realização da criança em si.

Vejo uma sociedade que parece que se esqueceu que um dia já foi criança e que hoje cresceu. Porque no fundo, isso é uma premissa base do ser criança. Hoje é-se criança para um dia se ser adulto. E é esse o nosso papel enquanto educadores: seguirmos passo a passo esta trajetória magnífica, munindo as nossas crianças com todas as ferramentas que precisem e amor, muito amor.

Sim, porque parece que até o amor ficou esquecido. Hoje tratamos as nossas crianças como pequenos robot que têm de encaixar nos nossos rótulos. Porque é tudo ou nada. Ou porque as crianças têm de ficar um dia na escola, mais horas em atividades extracurriculares, e ainda outra hora, ou duas em centros de explicações para fazer os trabalhos de casa, como se o cansaço não fosse prejudicial para a atenção da criança. Ou então queremos banir a criança de todo o tipo de trabalho de casa ou de qualquer rotina ou ordem pré-estabelecida, como se a criança não aprendesse por repetição ou não necessitasse de estrutura para se sentir protegida e poder aprender a ser em sociedade e como se o ter trabalho para casa não aumentasse o seu sentimento de responsabilidade.

Temos hoje crianças passam horas a receber estimulação do mais variado tipo de ecrãs, demorando horas a adormecer. Mas quando estas mesmas crianças são irrequietas ou tiram meros suficientes na escola, são tratadas como fonte de problemas, medicadas e trabalhadas para serem algo que na realidade não são. Temos crianças que ao fugirem ao padrão são etiquetadas com um diagnóstico, não tendo ninguém a perguntar-lhe o que realmente está a sentir. Como se um espirro fosse sintoma de uma só doença. Temos tanto, mas tanto talento a ser desperdiçado. Porque apesar de apregoarmos aos sete ventos que aceitamos as crianças como são, a realidade é que a inteligência ainda se resume ao que se consegue decorar.

Vejo crianças com dificuldades em saúde mental que ainda são tratadas como tendo alguma mania. Sendo olhadas de lado como se tivessem culpa de um comportamento que nem elas próprias ainda conseguem entender. Como se a saúde, por ser mental, fosse menos saúde. Temos crianças que não se sabem auto-regular. Porque nunca aprenderam, porque nunca ninguém lhes ensinou. E em vez de lhe estenderem a mão, temos adultos que ou a hiper protegem, desculpando-a por algo que deve e tem de aprender; ou adultos que a culpam como se tivesse destinada a determinado caminho, só porque ainda não aprendeu a estar ou a ser.

Vejo pais a culparem professores por métodos, como se o único propósito dos professores fosse prejudicar os seus alunos; e vejo professores a culpabilizarem pais,  como se os pais não fizessem sempre o melhor que podem, consoante as circunstâncias.

Vejo crianças imersas em imenso barulho, quando elas não podem nem têm permissão para dizer nada. Vejo uma sociedade que se crê evoluída relativamente à educação, quando ainda não aprendeu o mais importante de tudo: a escutar a vontade da criança.

Por isso, quando vejo este escorrer de críticas, de posições e de debates, pergunto-me: e a criança, o que pensa ela de nós?

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A ponte para a diversidade – crianças com necessidades educativas especiais

Vivemos uma sociedade que tenta apresentar valores cada vez mais inclusivos. Por isso, faz todo o sentido pedir agora à escola o desafio de conseguir que todos os alunos, independentemente das suas diferenças, sejam capazes de obter sucesso em meio escolar.

No entanto, esta é a mesma sociedade que se baseia ainda em inúmeros estereótipos e preconceitos, nomeadamente no que diz respeito à deficiência e outras necessidades especiais, sendo que os mesmos são baseados nas ideias e valores das sociedades em que se inserem. Assim, a ideia de integração social, e consequentemente de escola inclusiva, vão estar dependentes do nível de conhecimento de uma sociedade e sua interpretação da diferença, que se vai refletir na organização social, legislação e preparação dos restantes membros e professores para lidar com a diferença.
Por isso a ideia de escola inclusiva e de integração social está altamente dependente da colaboração dos diferentes meios da sociedade, nomeadamente pais e professores.

Segundo o famoso decreto de lei 3/2008 de 7 de janeiro, a escola apresenta a obrigação de aplicar medidas e respostas que sejam adequadas para os alunos com necessidades educativas especiais (NEE) de forma a que estes possam estar enquadrados no ensino regular. Estas alterações implicam a diversificação e a flexibilização do currículo consoante as necessidades do aluno, tanto sentidas na escola, como as apresentadas em outros contextos, sendo que este processo requer o envolvimento tanto de professores como de pais e mesmo terapeutas.

Contudo, na prática é possível denotar um clima de grande oposição entre estes dois intervenientes, muitas vezes pautada pela indiferença e pela recriminação, sobretudo em casos de crianças com NEE em que a forma de agir da família é muitas vezes própria e específica segundo a criança.

Os pais de crianças com NEE sentem-se frequentemente desvalorizados e pouco compreendidos. Estas famílias são frequentemente rotuladas, com falta de apoio, o que leva a família a centralizar os problemas vivenciados, aumentando portanto o sentimento de estigmatização. O problema alastra-se mais quando se pensa no impacto que a deficiência ou que a incapacidade tem na dinâmica familiar no geral, tornando-se em crianças extremamente desafiantes, comportando um stress adicional tanto a nível financeiro, como logístico e familiar.

Por outro lado os professores apontam que com a mudança provocada pelo decreto de lei, foram obrigados a receber alunos para os quais não têm formação específica para lidar, admitindo a falta de apoio pedagógico tanto para lidar com as crianças, como com as próprias famílias. Ou seja, hoje os professores deparam-se com a falta de apoio, materiais e formação para conseguirem dar resposta às necessidades apresentadas pelas crianças.

Mas tanto pais como professores sabem da importância destas crianças serem aceites e integradas no meio escolar. Não só para elas como também para as outras crianças, permitindo uma sociedade heterogénea. Por isso é importante compreender os sentimentos e frustrações associadas tanto para as famílias como para os professores, criando um processo empático entre ambos.

Depois é necessário capacitar os professores no sentido de os preparar para as dificuldades encontradas em sala de aula. No entanto, a solução não passa apenas pelos professores, uma vez que a integração de alunos na sala de aula necessita de pais que sejam interventivos, colocando os professores mais no papel de mediadores.

Por isso, a família tem de ter um contacto regular e uma maior compreensão sobre o trabalho realizado ao nível da escola. Em contraponto, os professores devem apostar no foco nas competências fortes do aluno e da família, respondendo às necessidades apontadas pela mesma. Ou seja, os pais têm de passar a ser chamados a apresentar as suas necessidades, sendo ouvidos, a construindo assim uma ponte de comunicação entre pais e professores, o que tão bem sabemos é o melhor e necessário para as nossas crianças.

A escola que afinal é cinzenta

Atualmente a escola tem sido motivo de grande debate. Seja porque o atual ministro quer ouvir as crianças, porque os pais espanhóis estão a fazer greve aos TPC, seja por estarmos a meio de novembro e as crianças já estarem exaustas… A realidade é que todos concordam que a escola não está adequada às necessidades do quotidiano atual. Mas a concórdia fica por aí. Se por um lado se diz que as crianças cada vez brincam menos, também se fala da necessidade de ter as crianças ocupadas. Se por um lado se fala do perigo das novas tecnologias, também se fala das suas potencialidades. Se por um lado se comenta que o processo deve ser mais valorizado, também se afirma que vivemos numa sociedade cada vez mais orientada para resultados. Se se diz que a escola deve transmitir conhecimento, também se diz que não deve deixar para trás os valores.

O grande problema no meio desta discussão, que a tanta discórdia leva, é que é preciso compreender que a própria sociedade evolui, trazendo novos paradoxos que afetam diretamente a escola. Assim, estes paradoxos significam que ambas as visões são válidas e verdadeiras, tendo sempre que ser entendidas e discutidas na sociedade em que estamos e nos apoios que são oferecidos.

Lembremo-nos que antigamente, quando o atual modelo de escola apareceu, tínhamos crianças que tinham aulas durante apenas uma parte do dia, tendo a mãe frequentemente em casa durante o restante tempo. As crianças moravam relativamente perto da escola, possibilitando o ir e voltar sem necessidade de supervisão. As rotinas familiares andavam de mão dada de forma harmoniosa com a rotina escolar.

Tudo mudou na atualidade. Assim, é verdade que sabemos da capacidade de concentração da criança e da necessidade de descanso, o que poderia levar a ter aulas apenas numa parte do dia. Mas por outro lado, também sabemos que a rede familiar da criança está a trabalhar em horário completo, impossibilitando de proteger e acolher a criança no horário não-escolar. Daí a necessidade de estender o horário escolar e de aparecerem as famosas AEC (atividades extra-curricular). Sabemos atualmente que o tempo livre e a imaginação são factores importantes para a criança, mas por outro lado, também conhecemos a importância da estimulação, do envolvimento em diversos contextos e dos benefícios mesmo sociais da prática de outras atividades fora da escola. Sabemos que as crianças aprendem hoje de forma diferente, de forma mais espontânea e rápida com acesso a novas tecnologias, mas sabemos também da importância do foco, da memória e da concentração, numa sociedade que anda cada vez mais efémera e célere.

A única coisa que me atrevo a dizer que ainda não sabemos é a importância do brincar. Ainda tratamos o brincar como se fosse algo minoritário e desperdício de tempo, quando é na realidade a forma mais valiosa de aprendizagem existente na criança. De facto, no dia em que governos, educadores, pais e outros agentes que intervenham com crianças se apercebam da importância do brincar, metade do sistema educativo fica resolvido.

Repare-se, as sociedades mudaram e com esta mudança, também o sistema educativo é obrigado a mudar. E vai mudando, mas não a uma velocidade rápida o suficiente e sem entender os equilíbrios.

É fundamental que se entenda a necessidade de se motivar as crianças para a aprendizagem por si só. É fundamental que se criem aulas e estratégias de promoção de inteligência emocional e resiliência. É fundamental que exista uma educação motora, mas acima de tudo psicomotora e integrada, que vá além dos princípios académicos e que seja valorizada. É fundamental que se entenda a arte como uma disciplina válida. É fundamental que se compreenda que o ensino das línguas, das ciências e das restantes disciplinas tem de partir de uma base empírica e lúdica. É fundamental que o ensino seja transversal e que aceite a diferença.

Mas é também fundamental que esta mudança seja realista e coerente com a sociedade que existe. Não podemos cair no extremo de deixar a criança aprender apenas o que quer e que lhe dá prazer, porque como adultos, sabemos perfeitamente que não é esse o mundo que a criança vai encontrar.

E não, este equilíbrio não é de todo fácil. Aliás, se o fosse, não haveria tanta discussão.

No entanto, a única forma de este diálogo avançar é construindo uma ponte entre pais e professores, terapeutas e escola, medidas governamentais e famílias. Porque se não dermos o exemplo às nossas crianças, ninguém o dará.