Ela sabe mãe, ela sabe…

Hoje trago-vos uma história. A história de uma menina que tinha muitas dificuldades quando a conheci… Não conseguia ficar muito tempo a fazer a mesma coisa, saltava com imensa facilidade de tarefa em tarefa, não atava os sapatos, mal conseguia contar e os desenhos dela não passavam de rabiscos. Mais importante, esta menina, por vezes, tinha um bichinho que a fazia fazer coisas. Coisas como puxar os cabelos dos outros, morder, empurrar ou beliscar. A menina não fazia por mal, era o bichinho.

Mas era uma menina linda, e ao fim de alguns meses de trabalho, começou a conseguir terminar tudo o que lhe era pedido, os atacadores, embora atabalhoados, já não eram seus inimigos, começou a contar até 10 (até 10, vejam só!), e começou a conseguir desenhar pessoas e letras. E os impulsos? estes aos poucos e poucos foram desaparecendo! Eu e a mãe estávamos extasiadas de tantas vitórias e muito orgulhosas do que a nossa menina estava a conseguir alcançar!

Certo dia, aos poucos, o bichinho foi aparecendo de novo. Não foi de todo claro ao início. Começou por uma mordida sem sentido. Depois por acender e apagar as luzes até eu ter de fazer cara fechada. De seguida, voltou a puxar cabelos. Quando dei conta, ter a menina sentada era impossível, todo o corpo dela começou a ficar tenso como um bloco e não tardou até o bichinho ter novos comportamentos de oposição e não deixar a menina lembrar de tudo o que já tinha aprendido.

Quando a situação já estava verdadeiramente descontrolada, tive de falar com a mãe para tentar perceber o que se passava. A princípio a mãe dizia que nada poderia fazer prever esta alteração na menina, mas continuando a conversa sobre a mãe, e não sobre a menina, foi possível ver que estavam a acontecer alterações várias. Figuras da família que eram ausentes e que tinham reaparecido e mesmo idas a tribunal.

-“Mas é impossível que a menina saiba! Nunca falei de nada à frente dela, e sempre que tive de ir a algum sítio, foi durante o horário escolar! Se existe alguma alteração, tenho certeza que não tem nada com isto! Ela nem sabe”.

Mas sabe mãe, ela sabe. No fundo, eles sabem sempre. Claro que os pais gostam de acreditar que apenas ele se preocupam com os filhos, mas se ao menos eles soubessem que os filhos também se preocupam, e muito com eles… Os filhos sentem os pais, não só pelo que ouvem, mas sobretudo pelo que vêm e pelo que sentem. Por aquele toque mais nervoso, por aquele riso mais tenso, por aquela resposta com menos paciência. Os filhos são pequenas esponjas que embebedam tudo à volta, dos pais também. Aliás, dos pais sobretudo. Por isso, não é preciso grandes conversas ou explicações para uma criança saber quando não está tudo bem. Os filhos podem não entender o que é, o que se passa ao certo, mas entendem que os pais e as mães, essas figuras mágicas de tanto amor, não estão bem. E a forma dos filhos reagirem isso é por comportamento, a tantos níveis que seria impossível numerar todos. Os filhos refletem os pais, no bom e no mau. Nunca nos podemos esquecer disso.

Psicomotricista Ana Fonseca

sad-child-portraithttp://www.publicdomainpictures.net/view-image.php?image=19826&jazyk=PT
Nota: o caso contado para ilustrar a situação, apesar de baseado em casos clínicos reais, não reflete nem conta nenhuma história verídica. Qualquer semelhança com um caso real será coincidência.
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