“Psicomotoquê?”

Psicomotorista?

Psiconutricionista?

Psicomotrocionista?

e tantos outros “psicomotoquês” que me chamam todos os dias…

Ao início enervava-me. Fazia cara feia e fazia questão de investir num tutorial de um-para-um na tentativa de cravar esta palavra na cabeça de todos os que ousavam fazer-me essa questão. Por vezes crianças inclusive.

Depois lembrei-me, eu há 10 anos atrás sabia o que era a psicomotricidade? Reabilitação psicomotora dizia-me alguma coisa? E psicomotricista era mais do que um nome complicado de dizer?

Não, há 10 anos atrás era apenas uma jovem confusa, como tantas outras, que via o tempo a voar no secundário, ao mesmo tempo que a porta para escolher a profissão que iria definir o resto da minha vida se aproximava.

Naquela altura, e nos anos que se seguiram até ser estudante da FMH, tinha poucas certezas… Sabia que gostava de crianças. Sabia que gostava de dançar, de teatro e de expressão. Sabia que gostava de saber o que os outros pensavam, e sobretudo, como eles pensavam. Sabia que queria fazer a diferença. Sabia que queria ajudar. E acima de tudo, sabia muito, muito bem que queria tudo menos um trabalho num escritório fechado das 9h00 às 18h00.

Desta forma, peguei no pouco que sabia e pus mãos à obra. Por um lado, a procurar as saídas que existiam e aquela em que eu melhor me enquadrava. Por outro lado, trabalhando com crianças em voluntariado. E foi aqui que a questão virou, e virou muito.

Neste tempo de exploração trabalhei com crianças fantásticas e que me mostraram um mundo. Entre estas mais variadas crianças, conheci algumas com dificuldades, que não aprendiam da mesma forma que as outras, que tinham muitas dificuldades em memorizar, que tinham uma postura que por si só afastava, que se mexiam tanto, tanto que era impossível falar com elas. Crianças que não conseguiam pôr por palavras tudo o que lhes ia na cabeça (e sobretudo no corpo), crianças com dificuldades em parar, crianças que por outro lado, não se conseguiam mexer como o seu corpo gostaria. Crianças que o corpo não fazia o que a cabeça mandava. Crianças que a cabeça não conseguia acompanhar o corpo.

Conheci crianças que gritavam por ajuda, mas gritavam para um corredor sem fim, onde a ajuda não lhes chegava. Reparem, eram crianças que precisavam desesperadamente de alguém que as visse como um todo, e que trabalhasse com elas, por elas.

E aí apareceu a psicomotricidade, ou curso de reabilitação psicomotora na altura. A psicomotricidade foi, e continua a ser, muito mais que um curso, ou que uma profissão. A psicomotricidade é um pedido, é uma resposta, é uma necessidade. É a esperança que o corpo e a cabeça consigam falar e entender-se e, quem sabe, conseguirem mesmo perceber que no fundo são o mesmo. Porque no fundo, são mesmo.

Por isso, hoje em dia já não reviro os olhos ao “psicomotoquê?”. Hoje em dia, explico o melhor que sei este mundo maravilhoso que escolhi viver.

E para os mais pequenos? Sou apenas a terapeuta do brincar.

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2 pensamentos sobre ““Psicomotoquê?”

  1. Sofia

    Olá,

    Palavras tão boas de se ler e que de soslaio me fizeram sorrir…
    Sou mãe de um futuro psicomotricista e revejo tudo o que referiu…
    Não se sabe o que é a reabilitação psicomotora, quando se sai do secundário e quantas vezes expliquei ( com orgulho ) que nada tinha a ver com fisioterapia, porque é o que a maioria pensa…
    Uma profissão linda, que me faz apaixonar, mesmo nao sendo minha…
    Todo o sucesso do mundo. E o sucesso na vertente do psicomotricista é uma palavra que enche a alma…
    Um beijinho cheio de psicomotoquês 👶👦👨

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