Querida adulta, no chão também se trabalha

Era uma vez uma menina. Já era uma menina crescida, pelo menos, já era uma menina que andava na escola dos grandes: tinha aulas, trabalhos de casa e estava agora a aprender a escrever, a contar, e tantas outras coisas sobre este maravilhoso mundo. No entanto, esta menina achava este mundo um sítio muito assustador. Sabem, a menina via perigos em todos os cantos e em todos os lugares, o que tornava muito complicado conseguir estar concentrada ou brincar livremente. Sobretudo, era difícil confiar em alguém.

Quando me falaram a primeira vez desta menina, falaram também da impossibilidade que era trabalhar com ela. E descreveram com aquelas palavras feias que os adultos gostam tanto de usar: “ela amarra o burrinho”, “ai, amua de uma maneira, que fica impossível”, “ela fecha-se no mundo dela… a partir daí, não há nada a fazer”. Por isso, ao conhecer esta menina, ia acompanhada de vários receios e ansiedades.

A porta da sala abriu-se, e mal entrámos, após algumas conversas triviais de apresentação, notei que a menina estava constantemente a olhar para debaixo da mesa, mesmo enquanto falava comigo, sempre num tom tímido e educado.

“Que estás a pensar? Passa-se alguma coisa de baixo da mesa?” – indaguei eu.

“Não, nada, era apenas um plano que eu estava a imaginar.” – respondeu a menina a medo.

“Ah, mas se era um plano, eu quero saber! Tenho certeza que era uma óptima ideia!”

Ainda eu não tinha acabado a frase já a menina se tinha escondido debaixo da mesa. Claro que nem pensei duas vezes, e juntei-me a ela.

“Então, e agora?” – sussurrei.

“Agora, estamos escondidas, caso apareça alguém mau.”

Foi um momento de pura magia. Para uma menina para quem confiar e relacionar-se era um desafio, partilhar comigo o seu plano, o seu esconderijo e aceitar-me lá era um salto inimaginável para um início de relação terapêutica. Estava em êxtase com as possibilidades que se abriam perante aquele plano. Nisto, o principal medo da menina aconteceu… Entrou “alguém mau” na sala: uma adulta.

“Estão debaixo da mesa? Não me diga que a menina já começou com as coisas dela! Vá, toca a sair que isto é para trabalhar” – disse com um sorriso reprovador, nem tentando controlar o seu tom de voz.

Pois querida adulta, acontece que no chão também se trabalha. E tantas, tantas vezes se trabalha mais no chão do que sentada numa cadeira, voltada para uma mesa. Inúmeras vezes as crianças são apelidadas por estes adultos como difíceis, mimadas, ou impossíveis de trabalhar, quando na realidade o que se passa é que as necessidades das crianças não são iguais às expectativas dos adultos. E aí, ao invés de se alterar as expectativas, continua-se constantemente a bater na mesma parede, aumentando a frustração tanto para a criança, como para o adulto.

É como que se só houvesse um objetivo e uma forma de trabalhar, como se as crianças não fossem em si diferentes e como se nós adultos não soubéssemos ver essa diferença. É que sabe, querida adulta, por vezes o chão é o ringue de combate, o campo de batalha, a casa escura, o fantasma escondido, o medo e a criatividade juntas. Por vezes o chão é o esconderijo, o porto seguro, a gruta de onde se parte para a conquista do mundo. E o adulto que se recusa a ver este trabalho, em prol de uma secretária, de um livro e de objetivos pré-estabelecidos por cumprir, está condenado a nunca encontrar a ponte para o mundo desta criança.

217849066_f011b26437_z-2Fonte imagem: http://www.ebc.com.br/infantil/para-pais/2014/11/crianca-com-medo-como-lidar
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