Eu sou mais que o meu diagnóstico

Querido adulto,

Precisamos urgentemente de falar. Posso não ser muito crescido e pode parecer que passo mais tempo a brincar que a trabalhar (se bem que ainda não notei muito a diferença que tu tanto gostas de referir), mas já reparei em algumas coisas. Já reparei que achas que faço coisas de forma diferente e já reparei que sempre que estás comigo esforçaste por me comparares aos meus amiguinhos. Até aqui tudo bem. Eu gosto muito deles e confio em ti, e por isso, acredito que se o fazes é para meu bem.

Agora adulto, o que não pode acontecer é esqueceres-te do meu nome para me começares a chamar uma data de coisas complicadas que não são o que eu sou. Por algum motivo que que eu não consigo entender, desde há uns tempos para cá que eu perdi a minha identidade para passar a ser o PHDA ou hiperativo, passar a ser o PEA ou asperger, passei a ser o paralisia cerebral ou tantas e tantas outras que podiam caber para aqui. Diz-me adulto, se eu te vejo sempre ansioso ou mal disposto devo também passar a chamar-te o rabugento, o mal-encarado ou o stressadinho?

Eu sei e compreendo que tu e todos os outros adultos tenham necessidade de dar um nome ao que eu faço, sobretudo quando há outros meninos que crescem e que se comportam da mesma forma do que eu. Mas parem de me reduzir a isso. É que a partir do momento em que vocês adultos se concentram só nessas palavras, é como se elas crescessem e crescessem, tanto e tanto que começam a sugar tudo à minha volta. A minha vida inclusivé.

É como se de repente fosse causa e consequência. É como se fosse desculpa e sentença. É como se eu deixasse de ser eu para ser uma palavra que nem sei o que significa ao certo. Eu sei que esse nome tem um significado, eu sei que esse nome tem um impacto e sei que ao me darem esse nome, no fundo, querem apenas ajudar-me e acompanhar as minhas dificuldades.

Mas lembra-te querido adulto, eu continuo aqui. Eu continuo a ser eu. E muito mais importante, eu sou e sempre serei muito mais do que esse nome. Eu irei aprender, eu irei crescer e eu irei surpreender, muito além do que esse diagnóstico ou do que qualquer adulto expecte de mim.

Por isso adulto, fica lá com o teu diagnóstico se isso te ajudar a ti e aos outros adultos de alguma forma. Mas quando olhares para mim, olha mesmo. Porque eu continuo cá, com diagnóstico ou não.

menino-urso1

Imagem retirada de  http://www.ufrgs.br/portaldapesquisa/conhecimentoesociedade/?p=305
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