A utilização da música na psicomotricidade (e na aprendizagem no geral)

Não raras as vezes abro as malas nas escolas e aparece alguém a perguntar: “Instrumentos musicais? Também é professora de música?”. A resposta é fácil: não, não sou. Não sou professora de música nem tão pouco musicoterapeuta. Isto quer dizer que eu utilizo a música sim nas minhas sessões, mas não a utilizo como princípio terapêutico ou não a utilizo como forma de conteúdo ou algo a ser ensinada, mas antes como mais uma ferramenta. A música no geral tem enormes vantagens para o desenvolvimento psicomotor e para a aprendizagem no geral, sobretudo em crianças nas idades pré-escolares, uma vez que a música ajuda no desenvolvimento de um conjunto enorme de competências pré-académicas.

Ora vejamos:

  • Estruturação Temporal – uma das formas mais fáceis de usar a música é através da criação ou recriação de ritmos. O usarmos os ritmos criados pelas crianças ou pedirmos às crianças para usarmos ritmos nossos permite-nos explorar a dimensão temporal da música. Podemos bater palmas de uma forma mais rápida, de uma forma mais lenta, podemos misturar ritmos e enquanto uma criança bate com os pés num ritmo mais lento, outra criança pode estalar duas vezes os dedos, fazendo compreender a noção temporal e a complexidade de dividirmos o tempo em diversas unidades. Ainda os ritmos, as melodias e as letras das músicas ajudam a ter uma noção de sequencialização, o que ajuda também na construção de conceitos temporais
  • Exploração dos ritmos de forma corporal – ainda associado ao ritmo, podemos usar o nosso corpo associado ao ritmo e desta forma trabalhar a nossa autorregulação e autocontrolo. Podemos pedir à criança para andar ao ritmo do guizo e desta forma ir aumentando ou diminuindo o ritmo, pedindo à criança para que adeque o seu padrão motor consoante o que for ouvindo. Esta é uma tarefa que pode ser simplificada ou complexificada consoante a resposta da criança, mas que sem dúvida que ajuda tanto na estruturação espácio-temporal, como na regulação tónica e no autocontrolo.
  • Linguagem – várias crianças têm dificuldades em usar as palavras para se expressarem, mas conseguem com alguma ajuda aprender a cantar. As músicas e as melodias podem ajudar as crianças a aprender palavras diversas e a conseguir dizê-las progressivamente de forma mais correta.
  • Divisão silábica – cantar e bater palmas ao mesmo tempo ajuda a marcar o ritmo e a ir, progressivamente dividindo as palavras. Compreender que as palavras se dividem em sons (fonemas) é extremamente importante para mais tarde adquirir competências como a leitura ou mesmo a escrita, pois permite identificar fonemas semelhantes ou distintos que compõe as diversas palavras, facilitando a aprendizagem do mecanismo da leitura e da escrita.
  • Competências pré-matemáticas – para além das músicas específicas que existem para este fim e que de uma forma lúdica permitem a aprendizagem de conceitos matemáticos, a música em si utiliza muito da matemática. Como falámos na estruturação temporal e rítmica, num tempo em que um colega marca um ritmo, outro pode ser capaz de bater duas palmas, ou seja, um mesmo tempo pode ser dividido em 2 ou mesmo em 3, abrindo portas para a noção de divisão ou de frações. Podemos ir acrescentando ritmos ou palavras nas músicas, ou mesmo retirando, desenvolvendo noções como a adição ou a subtração, e assim, através da música, criar mapas mentais que serão posteriormente usados a nível da matemática.
  • Comunicação e estabelecimento da relação – a música é algo lúdico e na sua globalidade prazeroso. Para algumas crianças pode ser mais fácil começar a cantar e posteriormente envolver-se em outros tipos de comunicação. Para além disso, as músicas podem ser uma poderosa ferramenta para adquirir uma data de hábitos sociais, como por exemplo, ter uma música para cumprimentar no início da sessão, ou para dizer adeus no fim. Assim, e através da música, estamos não só a fortalecer a relação como também a ensinar ferramentas básicas de comunicação que esperamos que a criança transfira para o seu quotidiano.
  • Criatividade – o corpo ou instrumentos básicos são uma porta aberta para a criatividade da criança. Com eles a criança pode inventar ritmos, músicas ou canções, permitindo desta forma que se exprima e que vá experimentando várias sonoridades, ritmos ou palavras. Esta exploração é essencial não só a nível hemisférico, mas também na construção da autoestima da criança, que se torna criadora e se sente validada pela sua possibilidade de criação.

Por isto tudo, vamos fazer música?

 

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O campo do psicomotricista – os factores psicomotores

Como já definimos várias vezes, a criança é um ser holístico, como todos nós. Isto quer dizer que, quando trabalhamos com a criança, não a podemos dividir em parte cognitiva, parte motora, parte emocional, parte linguística, etc. No entanto, e mesmo sabendo que essa é uma das partes mais ricas a nível terapêutico, esta é também uma área de algum conflito, uma vez que existem vários profissionais terapeutas a trabalhar com a criança e existem inevitavelmente algumas áreas que se tocam, levando-nos a perguntar: o que é realmente do psicomotricista?

Em todo o mundo psicomotor existem vários autores que nos respondem a estas perguntas, desde Soubiran, Ajuriaguerra, entre outros. Nós, em Portugal, temos um autor de extrema importância na fundação da nossa profissão: Vítor da Fonseca. Existem vários livros, textos e artigos que atribuem a este autor o título de “pai da Psicomotricidade em Portugal” e um dia poderemos debater sobre vários destes temas. Hoje vamos focar-nos num dos pontos de maior importância que Fonseca definiu para o nosso campo de trabalho profissional: os factores psicomotores.

Antes de avançarmos para os factores em si, importa reforçar que a psicomotricidade não é um campo isolado, mas antes o estudo transdisciplinar e sistemático da relação holística corporal, ou seja da ligação entre o psiquismo e a motricidade, na sua globalidade. Esta relação implica que existe uma compreensão global do ser humano, numa visão do seu desenvolvimento, o que faz com que os factores psicomotores apresentados por Fonseca tenham uma relação hierárquica no seu desenvolvimento, estando os primeiros factores na base do desenvolvimento dos seguintes.

Tónus

Por isso, o primeiro factor é de uma importância enorme, pois serve de base para os restantes. Falamos então do tónus, que é no fundo o alicerce do resto do desenvolvimento psicomotor. O tónus está relacionado com a contração muscular de base que nos permite manter uma postura, relaxar ou movimentar-nos, ou seja, que no fundo nos permite controlar o nosso corpo. No entanto, este fator não deve ser entendido numa dimensão unicamente motora. Este primeiro factor tem inicialmente uma componente de vigilância e função de alerta, sendo o que os bebés usam para mostrar o seu agrado ou o seu desagrado por sinais corporais, alterando perante o toque da mãe, onde o bebé encontra conforto, ou uma situação de desconforto, em que o bebé se contrai e chora. Este factor é por isso extremamente emocional, e continua assim o resto da nossa vida: quando nos sentimos bem, estamos relaxados e movimentamo-nos de forma mais controlada; quando algo nos perturba ficamos tendencialmente mais contraídos, com dores musculares e com movimentos menos controlados. Este é um factor fundamental no trabalho com as crianças, funcionando como porta para o trabalho terapêutico.

Equilíbrio

A partir do tónus e do consequente controlo do corpo, começamos a adquirir a postura de estar em pé, de permanecer na mesma posição ou de manter um referencial. Estas aquisições todas estão dentro do factor equilíbrio, ou seja, a nossa capacidade de controlar o tónus do nosso corpo para dar uma resposta à força gravitacional. É o nosso equilíbrio que nos permite tarefas mais complexas, como saltar ao pé coxinho ou andar de bicicleta, mas também as mais simples, como estar em pé ou sentados. Frequentemente este factor é associado a uma maior perícia motora, desvalorizando a sua importância. Mas reparemos, uma criança que tem dificuldades ao nível do equilíbrio dificilmente consegue estar sentada, alterando constantemente o seu referencial e o seu foco de atenção. Desta forma, é comum que crianças com dificuldades de aprendizagem apresentem também dificuldades ao nível das aprendizagens escolares e académicas.

Lateralidade

Uma vez que a dominância do corpo comece a ser adquirida e que a criança seja já capaz de explorar o ambiente, o seu cérebro começa a ter um desenvolvimento exponencial relativamente ao seu ambiente. Como sabemos, o cérebro está dividido em dois hemisférios, responsáveis por áreas um pouco diferentes. É exatamente nesta associação entre o domínio corporal, a exploração do ambiente e o desenvolvimento cerebral que aparece a lateralidade. Ou seja, a criança começa aos poucos a mostrar qual o seu lado dominante, podendo este tanto ser esquerdo, como direito, e em alguns casos inclusivamente ambidestro. Esta competência é também de extrema importância em idade escolar, não só devido à especificidade cerebral envolvida, como também ao nível da consistência das aprendizagens, por exemplo, do escrever.

Noção do corpo

Uma vez que somos capazes de controlar o nosso tónus, de manter posições de equilíbrio e de termos a nossa lateralidade definida, a criança começa a compreender o corpo que está a aprender a dominar. Isto é, aos poucos começa a ter uma imagem mental das várias partes que constituem o seu corpo e da forma como é possível dominar as mesmas. A criança começa a aperceber-se das suas mãos e de todos os movimentos possíveis fazer com elas, dos seus pés, dos seus braços e pernas e do seu tronco. A criança começa a conseguir identificar nela, no outro e em imagens as diversas partes que constituem o seu corpo e a definir os seus limites para com o seu ambiente. Tudo isto define o factor noção do corpo, ou seja, a consciencialização do seu corpo e da sua relação com o mesmo.

Estruturação espácio-temporal

Por isso, faz todo o sentido que, uma vez que comecemos a dominar o nosso corpo, a conhecê-lo e a perceber os seus limites, começamos a perceber o ambiente extra-corporal que se inscreve num espaço e num tempo. Ou seja, uma vez que comecemos a compreender o que nos constitui a nós enquanto seres humanos, começamos a explorar os vários ambientes que nos envolvem tanto na sua dimensão temporal, como espacial. As crianças começam a perceber o que é ir em frente, para a esquerda, para a direita, quantos passos necessitam para chegar a um lado, quando devem começar a travar para não embater num obstáculo, ou mais tarde a representação gráfica do espaço. Este factor é de extrema importância para a escrita. Uma criança com dificuldades ao nível da estruturação espacial terá dificuldades em respeitar os limites da folha, a margem e ainda o espaçamento das letras.

Praxia global

Uma vez que a compreensão do nosso corpo e do meio envolvente esteja a ser adquirida, começamos a explorar a possibilidade de interação com o mesmo, com os mais diversos movimentos e expressões motoras. Quando estas expressões motoras envolvem movimentos abrangentes e de todo o corpo, estamos a referir-nos à praxia global. Isto envolve a coordenação, a dissociação e mesmo a locomoção no seu geral. No entanto é importante reparar, uma criança que se movimente muito, não é obrigatoriamente uma criança com um óptimo desenvolvimento ao nível das praxias, uma vez que os movimentos práxicos são programados e controlados. Assim começamos a conseguir apanhar e lançar as bolas, tendo consciência do nosso corpo, da bola que vem até nós e da coordenação necessária entre a mão e o olho, ou seja, óculo-manual, ou óculo-pedal, caso seja com o pé. Ainda, começamos a ser capazes de ter movimentos mais complexos, como o salto tesoura ou realizar um movimento com a mão direita, outro com a mão esquerda e outro com os pés, por exemplo.

Praxia fina

Chegando assim a um último fator, o topo da hierarquia: a motricidade ou praxia fina. Este fator diz respeito a movimentos mais precisos e detalhados, realizados ao nível da mão e com uma alta especialização hemisférica, requerendo o trabalho de todos os outros factores para trás. Reparemos por exemplo no escrever: para conseguirmos realizar esta tarefa, necessitamos de ter uma postura correta que nos permita estar afastados do papel e com os braços e mãos com uma contração que nos permita agarrar na caneta, mas sem que seja demasiado. Teremos de manter o equilíbrio para manter a nossa postura e sermos capazes de manter o referencial folha. Temos de ter o nosso lado dominante definido para sabermos com que mão vamos escrever. Por outro lado, temos de ter consciência do nosso braço e da nossa mão e da forma correta de agarrar um lápis. Temos de compreender o espaço em que vamos escrever e adaptar o nosso movimento a esse espaço. Ao nível do movimento, apesar de não ser global, deve ser controlado e é um movimento efetivamente fino, usando a mão e os dedos, requerendo o controlo do resto do corpo.

 

Como podemos ver, existe todo um campo de trabalho para o psicomotricista que é muito mais do que o motor e muito mais do que apenas o psíquico. É um todo que tem de ser trabalhado por um psicomotricista, alguém que conhece e domina as áreas.

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Psicomotricidade e o acompanhamento em crianças com cancro

Celebrou-se durante esta semana o dia da luta contra o cancro e não poderíamos deixar passar esta oportunidade para refletirmos sobre o papel do psicomotricista neste campo.

O cancro em si é uma doença bastante dura, com diversas complexificações e com uma carga emocional e física muito pesada. Sendo que o psicomotricista pode atuar durante todas as etapas da vida, é verdade que tem espaço de intervenção em toda a população que esteja em tratamento oncológico, sendo que cada etapa representa um diferente tipo de trabalho e atenção.

Contudo, hoje focamo-nos especificamente no acompanhamento de crianças com cancro. Primeiro que tudo, temos que entender que este diagnóstico traz alterações de base para a família que terá de se re-organizar a nível de consultas, tratamentos e mesmo para se adaptar a imprevistos que possam ser trazidos no decorrer da doença, como por exemplo, ter de ficar em casa por a criança se sentir muito em baixo após um tratamento. Estas alterações todas são muitas vezes acumuladas com alterações profundas no quotidiano da criança, que antes se focava primariamente na escola, e que neste momento passa por hospitais, tratamentos, entre outros.

Estas alterações fazem com que a criança, adicionalmente aos sintomas que tem, tenha ainda de conviver com um stress adicional, que muitas vezes ainda não tem capacidade de processar. Por outras palavras, uma doença como o cancro, numa criança, acarreta o mesmo nível de dor e mesmo de stress que para um adulto, sendo que a criança ainda não tem maturidade para lidar com estas situações.

Este acumular de alterações na sua vida social, no faltar muitas vezes às aulas, adicionalmente com os sintomas inerentes da doença, provocam frequentemente um atraso global no desenvolvimento da criança, podendo-se repercutir tanto a nível físico, motor, como cognitivo, social e emocional. Ainda, as dores sentidas, ou repercussões do tratamento podem ter um impacto bastante nefasto tanto no esquema como na imagem corporal da criança.

Tendo em conta o quadro apresentado, a psicomotricidade pode ser uma resposta que ajude a criança e a sua família nesta dificuldade. O brincar em si é terapêutico e permite também que a criança se exprima emocionalmente e que consiga organizar as suas vivências mais traumáticas. Por outro lado, a psicomotricidade permite que, dentro de um espaço tanto terapêutico, como lúdico, a criança trabalhe e desenvolva um conjunto de competências, sem que tal esteja associado a um ambiente pesado ou de doença. Assim, o psicomotricista tem estratégias que ajudam a criança a organizar tanto o tempo como o espaço que a rodeia, da mesma forma que poderá servir como o espaço em que a criança potência o seu desenvolvimento psicomotor,  envolvendo tanto o motor, o cognitivo, o social e o emocional. Ao usar o corpo como ferramenta de trabalho num sentido positivo, ajudando na percepção da dor e mesmo usando o corpo em tarefas de sucesso, a psicomotricidade permite que a criança sinta o seu corpo como algo positivo e capaz, aumentando não só a sua auto-estima, como também o seu esquema e imagem corporal.

Ou seja, dada a visão holística que a psicomotricidade tem da criança, é um espaço privilegiado para analisar o impacto que a doença tem na mesma, vendo mais longe e permitindo desenvolver não só as capacidades que foram afetadas, como também fornece um espaço que permita que a criança organize as suas vivências de uma forma harmoniosa e que melhore a sua qualidade de vida.

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