Maus-tratos na infância – porque é necessário parar com o discurso do “no meu tempo”

O mês de abril é considerado o mês internacional da prevenção dos maus-tratos na infância, e por essas escolas fora é possível ver um laço azul, acompanhado muitas vezes de um calendário com várias sugestões para se realizarem em família, no sentido de fomentar uma união familiar. Estas iniciativas são de extrema importância e têm cada vez mais de ser replicadas. Mas antes disso, temos de perceber o porquê deste mês existir e o porquê de, atualmente, continuar a ser necessário realizar esta prevenção e consciencialização.

Apesar da maioria dos adultos de hoje já compreender que bater e ser violento são comportamentos negativos, ainda existe um discurso de base, muito enraizado na cultura portuguesa, que faz com que sempre que se veja uma criança a quebrar uma regra, a usar vocabulário mais vulgar ou a ser mais inquieta, exista uma voz que diz: “isto no meu tempo é que era”. Geralmente esta frase não se fica por aqui… Normalmente, depois desta introdução, segue-se uma exemplificação do que acontecia: “levava uma paulada”, “isto resolvia-se era ao estalo”, “um puxão de orelhas nunca fez mal a ninguém”, “uma palmada bem dada resolve muita coisa”. Este discurso existe. Não só existe, como é relativamente aceite e existe uma concordância de base. Mesmo ao nível da escola, onde hoje os castigos físicos são proibidos, ainda há uma crença de que tirar o castigo físico dado pelo professor, corresponde a retirar a autoridade e o respeito.

Ora, este discurso de base é perigoso. Primeiro que tudo, porque os tempos mudam. Efetivamente, todas as práticas enumeradas eram comuns no passado e usadas com frequência. No entanto, a infância não era compreendida como é hoje e a investigação ainda não tinha mostrado o impacto que estes comportamentos têm efetivamente nas crianças. Depois, porque o facto de um adulto ter sido resiliente o suficiente para ultrapassar o castigo físico, não é motivo para generalizar estes abusos como método de pedagogia.

Primeiro que tudo, os castigos físicos ou abusos físicos na infância estão altamente relacionados com sinais de depressão, com comportamentos agressivos e, mais tarde, com comportamentos de delinquência. A escolaridade obrigatória é hoje até ao 12º ano, pelo que as crianças têm de se manter no sistema educativo praticamente até á maioridade. Esta é uma diferença enorme. Isto porque a investigação tem mostrado que a violência para com as crianças muitas vezes tem impacto no seu desenvolvimento académico e na sua capacidade de atenção e motivação para aprender. Ora, antigamente, a taxa de desistência escolar era muito mais alta, logo se uma criança tinha dificuldades, saía e ia trabalhar. Hoje as crianças encontram-se mais protegidas, felizmente, por isso sim, ser vítima de castigos físicos tem impactos que são hoje mais fáceis de observar.

Para além disso, já se sabe também que existe uma relação entre os adultos que apresentam comportamentos violentos e que foram, em crianças, vítimas de violência. Existe um ciclo em que os comportamentos são aprendidos e passados de geração em geração. Este facto torna-se ainda mais gritante quando falamos de um dos anos mais mortais ao nível da violência doméstica. Ao batermos nas nossas crianças como forma de aprendizagem, estamos a reforçar a mensagem de que para aprender é preciso existir uma contenção física violenta e que, por isso, a violência é justificável. Mais tarde, enquanto adulto, quando encontrar alguém que não concorde ou que seja desafiante, mais facilmente se partirá para comportamentos desajustados, uma vez que foi o que aprendeu.

Ainda, quando a criança está a ter um comportamento desajustado e alguém lhe bate, a criança não está a parar o comportamento. Existe alguém que o está a parar por ela. Ela não está a ganhar estratégias para perceber o que fez de errado, para generalizar a aprendizagem, nem está a ganhar as ferramentas de autocontrolo que lhe permitam mais tarde parar sozinha, ou não começar de todo. Assim, se a criança pára o comportamento, ou não o volta a repetir, é por uma questão de medo. Medo, ao contrário do que anteriormente era difundido, não é respeito, é apenas medo. Uma criança que tenha medo dos adultos que a rodeiam, muito mais dificilmente irá falar sobre as dúvidas que tem ou irá confiar neles quando tiver problemas, levando também a outros comportamentos desviantes.

E finalmente, quando vemos duas crianças a serem violentas uma com a outra, o que fazemos? Quando um irmão está a bater no outro, qual é a nossa resposta? Se vemos uma criança a atirar um pau a um animal, o que pensamos? As crianças são pequenos habitantes do nosso mundo, que chegaram há pouco tempo e que ainda estão a aprender. Se o que lhes ensinamos for violência, elas serão violentas. Se for intolerância, elas serão intolerantes. São como um jardim, e cabe-nos a nós plantar flores.

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O meu colega T. – dia da consciencialização do autismo

Entrámos na sala, estávamos no início do ano letivo. A F. é uma menina que já vinha a acompanhar há bastante tempo, por isso conhecemo-nos bem e a sessão é muitas vezes utilizada para falar sobre vários assuntos.

– Ana, este ano tenho um colega novo… Não sei se já ouviste falar sobre ele aqui na escola… é o T.

Efetivamente já tinha ouvido e já tinha visto. A sua transferência tinha sido muito debatida em reuniões e era uma criança muito fácil de identificar nos recreios…

– Sim F., já o vi até, mas não sabia que era da tua turma… Ele está a gostar da nova escola?

– Não sei Ana… Em alguns dias acho que sim, em outros não tanto… Hoje, por exemplo, a professora ensinou-nos um jogo muito giro, e a turma estava toda a rir muito. Aí, do nada, o T. começou a gritar muito alto, a pôr as mãos nos ouvidos e a chorar. Não percebi bem o porquê… Eu achava que ele ia gostar do jogo…

– Sabes F., por vezes tu também te queixas do barulho na tua sala de aula, não é verdade? – ela acenou com ar pensativo – Pois, eu lembro-me que sim. O que acontece com o T., é que por vezes o barulho que nos parece normal é demasiado para ele, e assim é difícil para ele de se controlar.

A Cara da F. iluminou-se.

– Sim Ana, eu sei, a professora já nos disse. Falou-nos de alguma coisa sobre o autismo. Disse que o T. não gostava de barulhos fortes, nem que se pusessem à frente dele na fila. Ele também não gosta de choques ou encontrões e já vi que também não gosta muito que lhe tirem coisas da mão… Fica mesmo irritado… Por vezes, alguns meninos são menos simpáticos com ele, e tiram-lhe o chapéu para ver o que ele faz… Ele irrita-se muito, mas com razão, eles já sabem que ele não gosta…

– Ok, parece que tens estado muito atenta ao T. … O que é que achas de o ter como colega?

– Olha Ana, a mim parece-me óptimo! Ele aprendeu a ler tão, mas tão depressa! E já sabe os números todos! É meio trapalhão a escrever e por vezes precisa de se levantar ou faz uns barulhos estranhos… Mas eu estou sentada ao lado dele, e desde que o conheci já aprendi imenso sobre os planetas e foguetões! Devias ver, parece que ele sabe tudo sobre as estrelas, os astronautas e o espaço! Eu aprendo muito com ele! E às vezes ensino-lhe algumas coisas também. Eu cá gosto de o ter na sala, e sabes que mais? Não me interessa minimamente se ele é ou não é isso que os adultos dizem do autismo. Para mim, ele é só mais um amigo!

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