“E ele fica apenas a brincar?”

“Mas o que é que ele faz entre a escola e a hora do jantar? Não achas que tem demasiado tempo livre?”

“Mas Ana, tem de entender que temos de lhe ocupar estas horas vagas, porque se não ele não consegue aprender a utilizar o tempo de uma forma útil”

“Mas está a sugerir o quê, que o deixemos apenas a brincar?”

Sim, de facto estou a sugerir que as crianças devem ficar, um tempo bastante alargado “apenas” a brincar. De preferência em espaços abertos, de preferência em espaços naturais, de preferência com outras crianças que não sejam necessariamente colegas, de preferência sem a interferência dos adultos.

Numa sociedade cada vez mais acelerada e cada vez mais competitiva, é normal que sintamos que todos os nossos segundos acordados sejam no sentido de produzir alguma coisa. Quantas vezes não chegamos mesmo a cortar nas horas de sono e de descanso para mais uma horinha no escritório, ou mais uns minutos para acabar aquele relatório. Parece que o sentar, só  por sentar já não existe sem alguma culpa por não estarmos a ser “produtivos” para o nosso caminho de “sucesso”.

Neste caminho, resolvemos também levar as nossas crianças. Parece muita vez que as nossas crianças têm um horário de aprendizagem ainda maior que o nosso. Começam as aulas muito cedo, têm um dia repleto de aprendizagens e de absorção de conhecimento, que muitas vezes segue para as AEC e outras atividades de enriquecimento curricular, e por aí seguem para os ATL, centros de explicações e afins, e quantas vezes não seguem para desportos, músicas, atividades de expressão, entre outras. A oferta é tanta, que muitas vezes o próprio fim-de-semana é sacrificado, perdendo-se tempo em família em prol das tais atividades.

“Ah, ele está nos escuteiros, porque tem de desenvolver as capacidades sociais”

“Está no xadrez para desenvolver o raciocínio”

“Está na música e no violino para desenvolver a motricidade fina e o ritmo, e porque ouvi dizer que era muito importante para a leitura”

“Não quisemos abdicar da vela, para melhorar a concentração e a motricidade global”

Estas, entre tantas outras justificações para a sobrecarga horária das nossas crianças. Estas e a minha preferida do: “Antes isto, do que ficar apenas a brincar”. A verdade é que temos hoje uma oferta extremamente abrangente de atividades para as crianças e uma quantidade de informação, que chega a sobrecarregar os pais na hora da tomada de decisões. E sim, é verdade que as atividades extracurriculares, em certa medida, são de extrema importância para o desenvolvimento de uma data de capacidades. Mas também o é o brincar livre, ao ar livre e em ambientes naturais, e como disse, de preferência sem a interferência permanente de um adulto.

Tanto nas atividades extracurriculares, como em grande parte do dia da criança, está sempre um adulto presente. Raras as excepções, nós adultos temos a tendência de orientar a criança para o que achamos ser mais importante: para uma atividade que consideremos mais interessante para o seu desenvolvimento, para resolvermos as dificuldades imediatas do seu quotidiano, para interferir nos pequenos conflitos entre crianças que possam aparecer. Ao fazermos isto estamos a tirar à criança a sua capacidade de decisão, de autonomia e de desenvolvimento então das suas capacidades sociais.

Por isso, o brincar não é “apenas brincar”, mas antes o palco de uma data de aquisições de extrema importância, tanto no seu desenvolvimento psicomotor, académico e sócio-emocional. Ao colocarmos a criança ao ar livre, e sobretudo em ambientes naturais, a criança tem a hipótese de ter uma estimulação multi sensorial, que lhe vai permitir fazer uma generalização do mundo que a rodeia. Mais do que isso, vai perceber a existência de várias flores, várias árvores, vários solos e vários animais que a rodeiam. Esta descoberta é essencial para a construção da sua curiosidade, espírito crítico e noção ecológica. Por outro lado, sendo uma brincadeira livre, poderá subir às árvores, correr, saltar e realizar uma data de outras ações motoras, que a ajudaram no desenvolvimento do equilíbrio, noção de corpo, estruturação espacial, avaliação de risco, resolução de problemas, entre outros factores que serão necessários mais tarde para as aquisições académicas. Se a esta brincadeira livre se associar o estar com outras crianças, nomeadamente crianças com que não esteja em espaços estruturados, a criança tem a oportunidade de inventar jogos e brincadeiras de grupo, fomentando a criatividade, o raciocínio na construção de regras, o trabalho em equipa, o ceder e perceber o lado do outro. Se existirem conflitos, como é tão comum na infância, ao estarem livres, as crianças terão a oportunidade de, sozinhas, encontrar o melhor caminho para resolver a situação. Todas estas aquisições são essenciais para o desenvolvimento da empatia, uma capacidade tão falada hoje em dia.

Desta forma, estando num parque, num recreio, num jardim, as crianças desenvolvem ao seu tempo, no seu ritmo e em conjunto, grande parte das competências que atribuímos a necessárias de serem desenvolvidas de forma estruturada e fechada. Vários estudos já nos mostraram que o brincar e as várias fases do brincar são na realidade a preparação para aprendizagens mais permanentes e necessárias em outros períodos de vida, pelo que tirar mérito ao brincar é no fundo desvalorizar a infância e a sua importância.

Como dissemos, realmente existe um grande interesse em atividades extracurriculares, e claro que a presença adulta é sempre necessária na vigilância das nossas crianças. Mas tudo isso não tira mérito ao jogo e ao brincar, e acima de tudo, à agência da criança como construtura do seu próprio desenvolvimento.

two-caucasian-and-two-african-american-children-playing-together-725x483

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s