Quando a vida se passa à volta de um jogo

As sessões em contexto clínico, sobretudo as que são ao fim do dia, podem ser complicadas. Muitas vezes as crianças ou jovens já saíram das aulas há algum tempo, alguns passaram horas em atividades extracurriculares, outros já estavam em casa e aborrecem-se por terem de sair. O jovem G. estava mais neste quadro. No segundo ciclo, este jovem estava a ser acompanhado já há um par de anos. Apresentava dificuldades de ordem tónica, algum atraso no que diz respeito ao equilíbrio e à coordenação global, o que tinha obviamente impacto na motricidade fina, e mais tarde ao nível da grafia.

Mal entrou na sala, deitou-se ana cadeira, escorregando e com uma postura de enfado.

– Vejo que vens bem disposto G.! Também é um prazer ver-te! – brinquei eu com ele. Uma vez que já é um jovem mais crescido e que a sua capacidade cognitiva não se encontra comprometida, posso usar ferramentas como a ironia ou o sarcasmo, o que acaba por permitir alguma proximidade e familiaridade.

– Epa Ana, nem venhas! Sabes perfeitamente que não me apetecia nada vir! E nem é por ti, vá, és chata às vezes, mas até me divirto aqui. Mas estava a jogar e estava mesmo, mesmo a passar de nível. Quando voltar vai ser uma chatice! Falta muito para isto acabar? Quero voltar para o jogo! – respondeu-me ele com o à vontade que sabe que pode ter comigo.

– Mas ainda agora aqui chegaste e já estás a perguntar se podes ir embora?

– aaaah… Claro? Eu acordo a pensar no jogo, estou nas aulas a pensar no jogo e venho para aqui a pensar no jogo. E novidades?

E sim, isto é uma realidade mais do que comum. Vários jogos têm efeitos a nível cortival que ativam mecanismos de adição e dependência nos jovens. E isto é algo relativamente propositado nos jogos. Aliás, vem já de jogos como o totoloto, raspadinhas e afins. E os jogos de computador também têm um balanço muito bem estudado na facilidade entre o ganhar, o perder, a altura em que perde, a altura em que se pode guardar o jogo. Tudo isto está pensado de um ponto de vista comercial, de forma a que a criança ou jovem fique o mais interessada no jogo possível. Desta forma, caso não haja um balanço controlado do acesso que os jovens têm ao jogo, o cérebro dos mesmos não tem capacidade de autocontrolo suficiente, levando então a esta dependência.

– Bem, isso é pensar muito nos jogos mesmo… Diz-me G., consegues dizer-me mais ou menos quanto tempo jogas, sei lá, por dia? – perguntei eu.

– Deixa ver… bem, desde que chego a casa ao fim das aulas, depois paro para jantar, depois volto a jogar até ter sono… Mas isto não é assim tanto tempo… É quê, 1 ou 2 horas?

– Uma ou duas horas? Daquilo que me estás a dizer é bem mais… Vamos lá ver, tu sais das aulas normalmente às 17h00, do que sei, não tens nenhuma atividade extracurricular e vais logo para casa… E deitas-te a que horas mesmo?

– Cedo… normalmente à meia-noite… Mas às vezes, pela uma… Ou por vezes às duas… Mas as 3 são mesmo o mais tarde… Mas é raro… Nunca acontece mais do que duas vezes por semana…

– G., tens consciência que, mesmo que te deites à meia noite, jogas sempre no mínimo 5 a 6 horas por dia? E que nos dias em que te deitas às 3, isso quer dizer que jogas 8 horas? A maior parte dos adultos trabalha esse tempo que tu passas a jogar…

– Ana, que exagero, não é nada.

Pois… Este é outro do problema dos jogos. Muitas crianças e jovens estão ainda a desenvolver a sua noção temporal de quanto é uma hora, meia hora ou quinze minutos. No entanto, quando envolvidos no jogo e com a hiperestimulação que o mesmo representa, a sua noção de tempo perde-se. Por isso é tão normal eles pedirem 15 minutos a mais de jogo, mas depois ficarem furiosos quando pedimos assertivamente para parar ao fim de mais meia hora. Durante o tempo em que estão a jogar, os jovens perdem completamente a estruturação do tempo que os rodeia.

– Para além disso Ana, tens de perceber. É que tudo o resto é uma seca comparado com os jogos. Os jogos são brutais porque está sempre alguma coisa a acontecer. Já nas aulas é o quê? Um s’tor a falar?

É verdade. A parte gráfica e audiovisual dos jogos é extremamente elaborada e frequentemente super estimulante para o cérebro dos jovens, colocando-o num estado de atividade muito elevado. Desta forma, quando estão a jogar em demasia, o seu cérebro habitua-se àquele nível de excitação, fazendo com que tudo o resto lhes parece desvalorizado do ponto de vista de estimulação. O mesmo acontece com o sono, e daí ser tão comum que vários jovens que jogam até tarde, depois demorem a adormecer ou durmam num sono mais agitado. Se o seu cérebro esteve a ser hiperestimulado até à hora de deitar, continuará estimulado algum tempo depois, provocando anomalias ao nível do sono.

– Ok G., vamos assumir que até podias ter razão nisso. Mas e os teus colegas? E os teus amigos?

– Ana, vê se entendes. Primeiro, eu passo a vida a jogar com eles. Depois, eu tenho amigos muito mais interessantes nos jogos. Pessoas que gostam mesmo de mim, entendes?

Nos jogos online, isto é uma realidade comum. E uma vez que a realidade está distorcida, a estruturação temporal também e que o tempo em jogo é quase superior ao tempo de socialização fora do jogo, a área social fica também distorcida. E atenção, as gerações de hoje estão muito mais atentas ao que é verdadeiro ou não fora da internet, mas continuam a ter a ingenuidade e imprudência típica da idade, o que faz com que, caso não haja controlo, os jovens se possam colocar em situações de risco.

O G. acabou por passar bem a sessão. Por norma, não apresento jogos ou atividades em tablets, computadores ou telemóvel. Geralmente, as crianças já têm acesso a essas atividades no seu dia-a-dia. Por isso, jogámos jogos de tabuleiro, cartas e adivinhas. O G. riu-se imenso e nem deu conta da sessão passar. Mas assim que me levantei disse:

– Boa, vou já voltar para o jogo.

As férias estão aí, e claro que é uma altura para ser menos rígido nas regras e para alguma permissibilidade no que normalmente têm de ser horários muito fechados. Mas provavelmente estarão dias de sol lá fora. Esperemos que as nossas crianças e jovens aproveitem também um pouco do mundo que se passa fora do computador.

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