Se a criança é capaz, então deixe-a fazer

A H. é uma menina que já acompanhava o ano passado. É verdade que tem as suas dificuldades, mas tínhamos vindo a descobrir ao longo do terceiro período que era na verdade uma menina muito mais capaz do que achávamos. A H. tinha visto o seu agregado familiar a alterar-se seriamente ao longo do ano passado: os pais tinham-se separado, devido a motivos económicos, o pai teve de imigrar e a H. ficou a morar apenas com a mãe e com o seu irmão mais velho, que tinha paralisia cerebral e era extremamente dependente da mãe para as suas atividades de vida diária.

No início deste ano, como gostava de perceber melhor como foram as férias da H., pedi-lhe para utilizar a plasticina para representar 3 das coisas que mais tinha gostado de ver ou fazer nos meses em que não nos tínhamos visto. Eu claro que iria fazer também as minhas modulações, de forma a que no fim pudéssemos partilhar o que mais tínhamos apreciado no decorrer do verão. O facto de eu estar também ocupada era já um grande desafio para a H., uma vez que a obrigava a ser mais autónoma. No ano anterior esta foi uma das nossas batalhas: que a H. fosse capaz de estar focada numa tarefa, sem necessitar de um reforço constante e de ajuda para se voltar a focar na sessão.  Naquele dia esse nem foi tanto o problema, uma vez que a H começou a trabalhar sozinha, ainda que a um ritmo muito lento e constantemente a verificar o que eu estava a fazer.

Quando eu estava a acabar a primeira memória do verão, notei que a H estava a olhar para o teto e tinha à frente dela 3 pedaços de plasticina amolgados, mas sem forma nenhuma.
– H, que se passa? precisas de alguma coisa?

-Não Ana, já está mesmo.

Ora, achei a resposta muito estranha. No ano anterior tínhamos usado bastante a plasticina e a motricidade fina não era necessariamente uma das áreas comprometidas, logo eu sabia que a H não tinha investido naquela tarefa.
– H, tu fazes coisas tão giras com a plasticina… eu lembro-me muito bem… mas estas novas figuras, eu não sei se vou conseguir adivinhar… – tentei eu incentivar o envolvimento da H na atividade.

-Não Ana, eu não consigo… Eu não sei fazer grande coisa, sabes… Mas olha, e se eu te disser o que é e fizeres tu?

Esta resposta deu-me logo um sinal de alarme. Eu sabia que ela sabia fazer, no entanto, naquele momento a H preferia que eu fizesse por ela, do que ela tentar fazer melhor.

-H, como é que fazes de manhã? Como te vestes, fazes a cama e tomas o pequeno-almoço?

-Eu? Ai, não faço nada disso… Eu não sei fazer… E por isso a mãe faz por mim… Eu até já sei vestir o casaco, mas visto sempre ao contrário e troco as mangas… Eu até consigo mais ou menos fazer a cama, mas fica com os lençóis todos dobrados… e o pequeno-almoço até é só leite com cereais, mas muitas vezes entorno para cima do balcão… Por isso, assim é mais fácil: a mãe faz por mim, porque ela faz sempre bem.

Como sabem, as histórias que vos conto aqui na realidade não existem… são antes um aglomerado de várias situações e de várias histórias que vou contando à minha maneira, mas uma coisa é bastante verdadeira neste relato: o de que as crianças acabam por não fazer as suas tarefas, porque os pais fazem por elas. É verdade que as crianças tomam o seu tempo a ter mestria em muitas das tarefas do quotidiano, e é claro que neste processo elas são bastante lentas e cometem bastantes erros. Eu compreendo também que a nossa rotina não permita grande espaço dar tempo de forma indefinida e que a espera possa ser complicada, mas sei que este mecanismo que nós adultos criamos, na realidade não ajuda as crianças, só as prejudica.

Vejamos, se uma criança está a aprender uma aquisição e o adulto faz por ela por a criança ser lenta ou trapalhona, a criança nunca terá a oportunidade de praticar vezes suficientes para reforçar a aquisição e ser mais rápida ou precisa. No fundo, estamos a entrar num ciclo em que a criança não sabe fazer, nós fazemos por ela, a criança nunca treina, como tal nunca aprende. Todas estas pequenas tarefas são aprendidas por observação e tentativa, até chegarmos à automatização. Claro que os adultos podem, e devem fazer um reforço positivo ou ajudar a melhorar, mas isso é completamente diferente de fazer por.

Por outro lado, ao fazermos o que quer que seja pelas nossas crianças, estamos no fundo a reforçar a ideia de que elas não sabem fazer. Mais, que provavelmente não irão aprender e que atrapalham quando tentam fazer sozinhas. Ao nível da auto-estima estamos a enviar uma mensagem muito pouco positiva. Da mesma forma que se incentivarmos a criança a vestir-se, a servir o leite, a puxar os lençóis da cama, na realidade estamos a dizer: “Força, eu sei que tu consegues, já estás a ir tão bem que será apenas uma questão de tempo até fazeres tudo sozinha”. Crianças com uma auto-estima reforçada em casa, são crianças com maior capacidade de explorar, tentar coisas novas e mesmo de aprender: porque acreditam que conseguem.

Por último, mas não menos importante, fazer tarefas do quotidiano pela criança coloca-a fora da dinâmica familiar: ou seja, as coisas são feitas por ela. No entanto, se pensarmos no nosso lar, cada qual tem as suas tarefas: as tarefas da mãe podem passar por fazer o jantar e levar o lixo para a rua, as do pai podem ser lavar a louça e apanhar a roupa, as do irmão mais velho podem passar por ir à mercearia comprar o pão para o dia seguinte. Estas dinâmicas são de extrema importância por vários motivos, na realidade, mereciam uma reflexão só para este tema, mas colocar a criança à margem delas diminui a sua autonomia, o seu sentimento de pertença nas rotinas familiares e ainda a noção de esforço e de trabalho que são necessários para manter e gerir uma casa, algo que será necessário mais tarde.

Há uns tempos atrás uma grande pedagoga, de nome Montessori disse: “nunca faça pela criança uma tarefa que ela já se sinta capaz de fazer”. Esta ideia pioneira continua a ser verdade e deve ser uma linha orientadora: as crianças crescem e aprendem, que nós sejamos saber ser linhas orientadoras nesse processo e que possamos observar as suas conquistas. Aplaudindo, sempre. 

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Estaremos a preparar as crianças de hoje para serem cidadãos ativos?

As eleições legislativas em Portugal foram no passado fim-de-semana e a taxa de abstenção foi mais uma vez extremamente elevada. Entre os comentadores, os políticos e as redes sociais chovem comentários e explicações para um suposto desinteresse extremo por parte da população, nomeadamente dos jovens, que segundo se diz, demonstram uma grande desconexão da política.

Como todos os cartazes da cidade nos últimos meses têm estado dedicados à campanha eleitoral, aconteceu que mais do que um jovem me abordou sobre este tema, e como tinha curiosidade sobre os seus pontos de vista, fui-lhes também fazendo algumas perguntas. Neste caso, era um jovem já de fim de 3º ciclo, portanto no 9º ano. É verdade que já é mais velho, mas ainda está longe da idade de poder votar. No entanto parecia-me muito curioso sobre o processo no geral e fez-me imensas perguntas: sobre o processo em si de votar, sobre como se fazia a escolha, sobre o que eram propostas e porque é que haviam tantos partidos. A determinada altura acabei por lhe dizer:

–  Mas não tens de te preocupar, ainda te faltam uns aninhos para poderes decidir, ou achas que já saberias em quem votar?
– Oh Ana, achas? Nem agora, nem na altura! A sério que tenho medo! Toda a gente olha de lado para quem não vai votar, e estão sempre a dizer que a nossa geração não quer saber… Ora, eu quero saber, mas não faço a menor das ideias em quem iria votar, se pudesse! E nem sei como é que vocês conseguem saber…

Reforcei que ainda era muito novo e que, como tal, teria tempo para fazer esse tipo de decisões.

–  E o meu irmão Ana? Ele já tem 17 anos, nas próximas eleições já pode votar… No outro dia perguntei-lhe e disse-me que não sabia em quem votaria… Pior ainda, disse que estava quase a acabar o secundário, está em ciências, e por isso não tem noção nenhuma do que falam no telejornal: não sabe o que é esquerda, direita, o que fazem os ministros e ministérios e como é que quem lá está à frente lá chegou… Diz que provavelmente vai votar naquele que os pais votam sempre, porque confia neles…

Esta sessão e tantas outras conversas que fui tendo com os jovens na última semana funcionaram como alerta. Estaremos nós a preparar as crianças para serem cidadãos ativos que compreendem as suas decisões e o seu impacto na sociedade? Será que os jovens de hoje percebem a importância do seu voto ou a sua escolha de não votar e o peso histórico que essa decisão acarreta?

Temos um currículo cada vez mais especializado e orientamos cada vez mais as crianças para o aprofundamento de conhecimento, mas o que esperamos nós que sejam as crianças quando saem da escola? Estaremos a dar-lhes as ferramentas para mais do que “saberem muito”, saberem antes estar e ser? Será que estamos a ajudar as crianças a desenvolver o seu pensamento próprio, sentido crítico e capacidade de pesquisa dentro dos temas que não dominam? Estaremos a incentivar os jovens a saírem da caixa e a exprimirem a sua individualidade, de forma informada e consciente?

Sabemos que os jovens de hoje são a geração que tem mais conhecimento à sua disposição e que à distância de um dedo podem ver grande parte das suas dúvidas esclarecidas. Mas quererá tal dizer que são a geração mais informada? Está na altura de pensarmos mais nos cidadãos que estamos a formar, para uma sociedade mais consciente das suas escolhas.

 

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Será que são só mesmo as crianças que não largam o telemóvel?

O público com que trabalho mais são crianças, nomeadamente as que estão no primeiro ciclo. Mas, não é a minha única população e, sobretudo em contexto clínico, acompanho vários adolescentes e faço várias avaliações a crianças mais crescidas. Os desafios são um pouco diferentes, mas é algo que me dá muito gosto e prazer.

A D. já tinha sido diagnosticada há bastante tempo com PHDA, e estando no 9º ano, começava a apresentar vários sinais de ansiedade, as dores de cabeça e de barriga tinham vindo a aumentar sem nenhuma justificação médica e começava a apresentar alguns tiques, como piscar os olhos ou bater com as unhas na mesa. Os pais diziam ainda que era absolutamente viciada em redes sociais e que já não era possível vê-la sem um ecrã na mão. Como é habitual em meninas desta idade, a D. não estava com particular vontade de estar a fazer a avaliação no final do dia, ainda por cima tinha tido teste diagnóstico. Entrou, sentou-se à minha frente e enquanto eu ia preenchendo as informações básicas como o nome e a idade, a D. não parava de mexer no telemóvel. Como não queria à partida causar uma situação de desconforto, fui deixando. Até que chegou a altura em que a D. tinha mesmo de me dar atenção plena para poder fazer as diversas tarefas que lhe ia pedir.

–  O quê? Só podes estar a gozar, agora nem posso olhar para o telemóvel?
– Pois, não é que não possas, mas eu vou precisar que prestes mesmo atenção ao que te vou pedir, e se estiveres ao telemóvel será mais difícil de perceber se compreendeste tudo o que te disse… Achas que o podes pousar até ao final da sessão? Deixas aqui no canto da mesa e quando acabarmos podes levar.
– É, eu acho muita graça a vocês adultos, nós temos todos de pôr o telemóvel na mala, não podemos mandar mensagens nas aulas, não podemos ver as horas, não podemos jogar ao jantar, mas e vocês adultos?

Respondi-lhe imediatamente que se a deixasse mais confortável, poderia colocar o meu telemóvel junto do dela e fazíamos o pacto de nenhuma das duas tocar no telemóvel no tempo que faltasse de sessão, mas quis aproveitar esta ponte de comunicação para a perceber um pouco melhor.

– Achas que é injusto quando os adultos vos pedem para guardar o telemóvel? É que no fundo só queríamos ter a vossa atenção, nada mais.
– Pois, sabes é isso que acho giro. Uma data de “storas” manda-nos participação se tocarmos no telemóvel, mesmo que seja só para ver as horas, mas sempre que estamos em teste ou a passar alguma coisa do quadro, lá estão elas às mensagens, nem notam que estamos com o dedo no ar; a mãe e o pai dizem que não posso ter o telemóvel à mesa, mas depois passam o jantar ao telefone com o colega sobre alguma coisa que se passou no trabalho; estamos em família e nem podemos mostrar os telemóveis uns aos outros, porque dizem que temos de conviver, mas quando depois olhamos para eles estão todos em roda, cada um no seu telemóvel…

Eu ouvi e tentei recordar-me de todas as vezes que alguma das minhas crianças saiu de sessão cheia de vontade de contar alguma coisa aos pais, que estavam ao telefone e demasiado ocupados para os ouvirem, lembrei-me de todas as vezes que vou a uma esplanada e vejo os miúdos a chamarem pelos pais para mostrarem a nova acrobacia, enquanto estes estão a jogar no telemóvel. Lembrei-me e fui obrigada a refletir: estará a D. assim tão errada? Estaremos nós a culpar uma geração por comportamentos aditivos, quando nós próprios já não sabemos definir limites? De onde aprenderam eles esta dependência que, segundo nós, tanto os caracteriza?

Que tenhamos todos tempo de nos desconectar um pouco, para sermos capazes de nos observarmos a nós e às nossas crianças, com um renovado sentido de ligação.

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