Será que são só mesmo as crianças que não largam o telemóvel?

O público com que trabalho mais são crianças, nomeadamente as que estão no primeiro ciclo. Mas, não é a minha única população e, sobretudo em contexto clínico, acompanho vários adolescentes e faço várias avaliações a crianças mais crescidas. Os desafios são um pouco diferentes, mas é algo que me dá muito gosto e prazer.

A D. já tinha sido diagnosticada há bastante tempo com PHDA, e estando no 9º ano, começava a apresentar vários sinais de ansiedade, as dores de cabeça e de barriga tinham vindo a aumentar sem nenhuma justificação médica e começava a apresentar alguns tiques, como piscar os olhos ou bater com as unhas na mesa. Os pais diziam ainda que era absolutamente viciada em redes sociais e que já não era possível vê-la sem um ecrã na mão. Como é habitual em meninas desta idade, a D. não estava com particular vontade de estar a fazer a avaliação no final do dia, ainda por cima tinha tido teste diagnóstico. Entrou, sentou-se à minha frente e enquanto eu ia preenchendo as informações básicas como o nome e a idade, a D. não parava de mexer no telemóvel. Como não queria à partida causar uma situação de desconforto, fui deixando. Até que chegou a altura em que a D. tinha mesmo de me dar atenção plena para poder fazer as diversas tarefas que lhe ia pedir.

–  O quê? Só podes estar a gozar, agora nem posso olhar para o telemóvel?
– Pois, não é que não possas, mas eu vou precisar que prestes mesmo atenção ao que te vou pedir, e se estiveres ao telemóvel será mais difícil de perceber se compreendeste tudo o que te disse… Achas que o podes pousar até ao final da sessão? Deixas aqui no canto da mesa e quando acabarmos podes levar.
– É, eu acho muita graça a vocês adultos, nós temos todos de pôr o telemóvel na mala, não podemos mandar mensagens nas aulas, não podemos ver as horas, não podemos jogar ao jantar, mas e vocês adultos?

Respondi-lhe imediatamente que se a deixasse mais confortável, poderia colocar o meu telemóvel junto do dela e fazíamos o pacto de nenhuma das duas tocar no telemóvel no tempo que faltasse de sessão, mas quis aproveitar esta ponte de comunicação para a perceber um pouco melhor.

– Achas que é injusto quando os adultos vos pedem para guardar o telemóvel? É que no fundo só queríamos ter a vossa atenção, nada mais.
– Pois, sabes é isso que acho giro. Uma data de “storas” manda-nos participação se tocarmos no telemóvel, mesmo que seja só para ver as horas, mas sempre que estamos em teste ou a passar alguma coisa do quadro, lá estão elas às mensagens, nem notam que estamos com o dedo no ar; a mãe e o pai dizem que não posso ter o telemóvel à mesa, mas depois passam o jantar ao telefone com o colega sobre alguma coisa que se passou no trabalho; estamos em família e nem podemos mostrar os telemóveis uns aos outros, porque dizem que temos de conviver, mas quando depois olhamos para eles estão todos em roda, cada um no seu telemóvel…

Eu ouvi e tentei recordar-me de todas as vezes que alguma das minhas crianças saiu de sessão cheia de vontade de contar alguma coisa aos pais, que estavam ao telefone e demasiado ocupados para os ouvirem, lembrei-me de todas as vezes que vou a uma esplanada e vejo os miúdos a chamarem pelos pais para mostrarem a nova acrobacia, enquanto estes estão a jogar no telemóvel. Lembrei-me e fui obrigada a refletir: estará a D. assim tão errada? Estaremos nós a culpar uma geração por comportamentos aditivos, quando nós próprios já não sabemos definir limites? De onde aprenderam eles esta dependência que, segundo nós, tanto os caracteriza?

Que tenhamos todos tempo de nos desconectar um pouco, para sermos capazes de nos observarmos a nós e às nossas crianças, com um renovado sentido de ligação.

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