Não me falem, mostrem

Caros adultos precisamos de falar. Parece que ao fim de algumas décadas neste mundo se esqueceram de como é não saber. Parece que já sabem tanto que começaram mesmo a acreditar no provérbio “faz o que eu digo, não faças o que eu faço”. Mas não adultos, nós não conseguimos fazer o que vocês dizem, sem fazer o que vocês fazem. Nós nada sabemos do mundo ainda, quanto mais interpretar palavras sem ações que venham junto com elas. Adultos, têm que entender que nós somos pequenos seres que acabaram de chegar a este vosso mundo, sobre o qual tudo sabem, mas onde tudo é novo para nós.

Por isso não me digam que o mundo é feito cores maravilhosas, mas mostrem-me livros de desenhos vibrantes; não me falem dos sabores existentes, mas mostrem-me as frutas saborosas que possa provar; não me falem do cheiro da maresia, das flores ou do campo, mas levem-me antes ao oceano, às rosas e à terra. Não me falem das voltas na barriga que se sentem, mas deixem-me saltar para cima e para baixo, dar cambalhotas e rodopios, para eu saber o que é sentir o meu corpo a mexer. Não me falem da importância do ler e do contar, mas mostrem-me como o posso aprender pelo meu corpo e ajudem-me a usar esses conhecimentos de uma forma que me faça sentido, a mim criança, não a vocês adultos. Não me falem da importância de estar quieto porque vocês querem, mas mostrem-me o caminho para aprender a regular-me, e conseguir correr muito quando posso e a acalmar quando é preciso.

Caros adultos, não me falem do que eu devia fazer para vos ajudar ou facilitar as tarefas, mas mostre-me o mundo de possibilidades que há lá fora. Não me digam que têm pressa e que eu tenho de me despachar, quando eu ainda agora aqui cheguei e tudo é novo para mim. Não me roubem o prazer de quem ainda está a fazer pela primeira vez e de quem ainda descobre aos poucos as maravilhas nas pequenas coisas.

Antes, caros adultos, estejam ao pé de mim. Estiquem a vossa mão se me virem a fraquejar, aparem-me quando eu cair e soprem para aquele joelho esfolado de quem também está a aprender o que é a dor. E no fim, ajudem-me a levantar e a partir para uma nova aventura. É que afinal, só se descobre o mundo pela primeira vez uma vez.

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http://dicasdefarmaceutica.blogs.sapo.pt/dia-da-crianca-vamos-brincar-21655
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“Psicomotoquê?”

Psicomotorista?

Psiconutricionista?

Psicomotrocionista?

e tantos outros “psicomotoquês” que me chamam todos os dias…

Ao início enervava-me. Fazia cara feia e fazia questão de investir num tutorial de um-para-um na tentativa de cravar esta palavra na cabeça de todos os que ousavam fazer-me essa questão. Por vezes crianças inclusive.

Depois lembrei-me, eu há 10 anos atrás sabia o que era a psicomotricidade? Reabilitação psicomotora dizia-me alguma coisa? E psicomotricista era mais do que um nome complicado de dizer?

Não, há 10 anos atrás era apenas uma jovem confusa, como tantas outras, que via o tempo a voar no secundário, ao mesmo tempo que a porta para escolher a profissão que iria definir o resto da minha vida se aproximava.

Naquela altura, e nos anos que se seguiram até ser estudante da FMH, tinha poucas certezas… Sabia que gostava de crianças. Sabia que gostava de dançar, de teatro e de expressão. Sabia que gostava de saber o que os outros pensavam, e sobretudo, como eles pensavam. Sabia que queria fazer a diferença. Sabia que queria ajudar. E acima de tudo, sabia muito, muito bem que queria tudo menos um trabalho num escritório fechado das 9h00 às 18h00.

Desta forma, peguei no pouco que sabia e pus mãos à obra. Por um lado, a procurar as saídas que existiam e aquela em que eu melhor me enquadrava. Por outro lado, trabalhando com crianças em voluntariado. E foi aqui que a questão virou, e virou muito.

Neste tempo de exploração trabalhei com crianças fantásticas e que me mostraram um mundo. Entre estas mais variadas crianças, conheci algumas com dificuldades, que não aprendiam da mesma forma que as outras, que tinham muitas dificuldades em memorizar, que tinham uma postura que por si só afastava, que se mexiam tanto, tanto que era impossível falar com elas. Crianças que não conseguiam pôr por palavras tudo o que lhes ia na cabeça (e sobretudo no corpo), crianças com dificuldades em parar, crianças que por outro lado, não se conseguiam mexer como o seu corpo gostaria. Crianças que o corpo não fazia o que a cabeça mandava. Crianças que a cabeça não conseguia acompanhar o corpo.

Conheci crianças que gritavam por ajuda, mas gritavam para um corredor sem fim, onde a ajuda não lhes chegava. Reparem, eram crianças que precisavam desesperadamente de alguém que as visse como um todo, e que trabalhasse com elas, por elas.

E aí apareceu a psicomotricidade, ou curso de reabilitação psicomotora na altura. A psicomotricidade foi, e continua a ser, muito mais que um curso, ou que uma profissão. A psicomotricidade é um pedido, é uma resposta, é uma necessidade. É a esperança que o corpo e a cabeça consigam falar e entender-se e, quem sabe, conseguirem mesmo perceber que no fundo são o mesmo. Porque no fundo, são mesmo.

Por isso, hoje em dia já não reviro os olhos ao “psicomotoquê?”. Hoje em dia, explico o melhor que sei este mundo maravilhoso que escolhi viver.

E para os mais pequenos? Sou apenas a terapeuta do brincar.

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Ela sabe mãe, ela sabe…

Hoje trago-vos uma história. A história de uma menina que tinha muitas dificuldades quando a conheci… Não conseguia ficar muito tempo a fazer a mesma coisa, saltava com imensa facilidade de tarefa em tarefa, não atava os sapatos, mal conseguia contar e os desenhos dela não passavam de rabiscos. Mais importante, esta menina, por vezes, tinha um bichinho que a fazia fazer coisas. Coisas como puxar os cabelos dos outros, morder, empurrar ou beliscar. A menina não fazia por mal, era o bichinho.

Mas era uma menina linda, e ao fim de alguns meses de trabalho, começou a conseguir terminar tudo o que lhe era pedido, os atacadores, embora atabalhoados, já não eram seus inimigos, começou a contar até 10 (até 10, vejam só!), e começou a conseguir desenhar pessoas e letras. E os impulsos? estes aos poucos e poucos foram desaparecendo! Eu e a mãe estávamos extasiadas de tantas vitórias e muito orgulhosas do que a nossa menina estava a conseguir alcançar!

Certo dia, aos poucos, o bichinho foi aparecendo de novo. Não foi de todo claro ao início. Começou por uma mordida sem sentido. Depois por acender e apagar as luzes até eu ter de fazer cara fechada. De seguida, voltou a puxar cabelos. Quando dei conta, ter a menina sentada era impossível, todo o corpo dela começou a ficar tenso como um bloco e não tardou até o bichinho ter novos comportamentos de oposição e não deixar a menina lembrar de tudo o que já tinha aprendido.

Quando a situação já estava verdadeiramente descontrolada, tive de falar com a mãe para tentar perceber o que se passava. A princípio a mãe dizia que nada poderia fazer prever esta alteração na menina, mas continuando a conversa sobre a mãe, e não sobre a menina, foi possível ver que estavam a acontecer alterações várias. Figuras da família que eram ausentes e que tinham reaparecido e mesmo idas a tribunal.

-“Mas é impossível que a menina saiba! Nunca falei de nada à frente dela, e sempre que tive de ir a algum sítio, foi durante o horário escolar! Se existe alguma alteração, tenho certeza que não tem nada com isto! Ela nem sabe”.

Mas sabe mãe, ela sabe. No fundo, eles sabem sempre. Claro que os pais gostam de acreditar que apenas ele se preocupam com os filhos, mas se ao menos eles soubessem que os filhos também se preocupam, e muito com eles… Os filhos sentem os pais, não só pelo que ouvem, mas sobretudo pelo que vêm e pelo que sentem. Por aquele toque mais nervoso, por aquele riso mais tenso, por aquela resposta com menos paciência. Os filhos são pequenas esponjas que embebedam tudo à volta, dos pais também. Aliás, dos pais sobretudo. Por isso, não é preciso grandes conversas ou explicações para uma criança saber quando não está tudo bem. Os filhos podem não entender o que é, o que se passa ao certo, mas entendem que os pais e as mães, essas figuras mágicas de tanto amor, não estão bem. E a forma dos filhos reagirem isso é por comportamento, a tantos níveis que seria impossível numerar todos. Os filhos refletem os pais, no bom e no mau. Nunca nos podemos esquecer disso.

Psicomotricista Ana Fonseca

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Nota: o caso contado para ilustrar a situação, apesar de baseado em casos clínicos reais, não reflete nem conta nenhuma história verídica. Qualquer semelhança com um caso real será coincidência.

Obrigada

Celebra-se hoje o dia do obrigado e senti que não devia deixar em branco. A realidade é que não dizemos esta palavra vezes suficientes. Entre o nosso quotidiano e os nossos afazeres, tomamos muito do que nos rodeia por garantido e esquecemos de mostrar o nosso apreço pelos pequenos esforços que aqueles que nos rodeiam fazem para tornar o nosso dia um pouco melhor. Todos os pais, professores e terapeutas sabem a importância desta palavra para com os nossos filhos, colegas e professores, mas muitas vezes os agradecimentos ficam dentro da nossa cabeça, como que se o outro o soubesse.

Por isso, hoje, quero aproveitar este dia. É que no fundo, a minha maior gratidão é poder fazer o que mais me apaixona, todos os dias. Por isso, quero agradecer. Quero agradecer a todos os professores, que se esforçam e que se levantam, dia após dia, sempre com uma esperança e uma fé renovada, nas suas crianças, nos seus alunos. Quero agradecer-lhes por não desistirem. Quero agradecer-lhes por tentarem inovar num sistema tão fechado, e por tantas vezes verem oportunidades onde outros viam apenas dificuldades. Quero agradecer-vos pela profissão tão digna que têm e pelo vosso trabalho, que sei que não é fácil.

Quero agradecer aos meus colegas terapeutas. Psicomotricistas, terapeutas ocupacionais, terapeutas da fala, psicólogos, fisioterapeutas e tantos, tantos outros. Por todos os momentos mais difíceis onde o sorriso e a esperança não desvanecem. Por todas as alegrias que surgem e por cada conquista vossa, nossa e de cada um. Quero agradecer por todo o trabalho de equipa, por verem que sozinhos é mais difícil, mas que quando estamos juntos, o céu é o limite. Obrigada pela vossa partilha e pelo vosso conhecimento. Sou tão mais rica por partilhar crianças extraordinárias com outros colegas igualmente extraordinários, e é tão bom saber que a vida destas crianças é preenchida por sorrisos tão lindos e tão nobres.

Quero agradecer às famílias, e se me permitem, com um carinho especial aos pais e às mães. Este agradecimento não é complicado nem pomposo. É bastante simples, para dizer verdade. Quero agradecer-vos por darem o vosso melhor. Eu sei que passamos a maior parte do tempo a puxar para ver quem faz melhor, e tantas, tantas vezes em julgamentos fúteis que em nada ajudam. É uma realidade a que raramente escapamos. Mas acreditem pais, mães, tios e avós, nós sabemos que cada um está a fazer o melhor que pode. A vossas crianças também o sabem, e também sei que o agradecem. Aos pais que confiam as suas crianças, o seu bem mais precioso, comigo 1 ou 2 vezes por semana, um agradecimento de coração. Sei o peso e a responsabilidade que me entregam semanalmente, e sou-vos eternamente grata por isso.

A todas as crianças. As que já se cruzaram no meu caminho, as que ainda o passam todas as semanas. A todas as crianças que já o foram comigo e que hoje em dia já o deixaram de ser. Muito obrigada por terem deixado que fizesse parte da vossa história. Obrigada por me ouvirem e por me aceitarem. Acima de tudo, obrigada pelas valiosas lições que me ensinaram, que foram tantas, tantas. Sabem crianças, sinto que não vos agradecemos o suficiente. Sinto que passamos tantas horas a discutir e a argumentar com vocês, sobre vocês e por vocês, que nos esquecemos do importante: agradecer-vos por fazerem parte da nossa vida, e por a embelezarem com inocência, alegria, vitória e superação, todos os dias.

Sei que os agradecimentos não podem nem devem ser feitos uma vez por ano. Sei que este processo devia ser repetido todos os dias. Sei que na relação com a realidade nem sempre é fácil. Mas quem sabe, se esta palavra, esta única, pequena e simples palavra, não tornaria tudo mais simples. Por isso, a todos, obrigada.fullsizerender

 

 

Natal para além das prendas?

O Natal está mais do que aí à porta, e com ele vem a loucura dos jantares, da comida abundante e claro das prendas. Quero antes de mais deixar claro que este texto não se trata de uma promoção do Natal. Existem famílias que não celebram o Natal, e não têm crianças nem mais, nem menos desenvolvidas do que isso. Mas para as famílias que efetivamente celebram o Natal, torna-se por vezes complicado fazer entender às crianças que este dia não se resume a receber prendas. Levadas pela propaganda e pela agitação da época, muitas vezes as crianças focam-se apenas no materialismo do dia e desvalorizam outros valores também inerentes da época como a família, a partilha, o amor, entre outros.

Desta forma, apresento de forma reduzida algumas dicas que podem ajudar a incutir estes valores à criança durante esta época festiva e ao mesmo tempo a desvalorizar a importância das prendas em si.

  • Contagem do tempo até ao Natal – primeiro que tudo, épocas festivas como Natal, Carnaval, Páscoa, entre outros, são extremamente importantes para a criança ser capaz de estruturar a passagem do tempo e para criar referências. Assim, chegado a dezembro podemos aproveitar para trabalhar este fator. Uma forma simples são os famosos calendários de chocolate do advento. Mas estes podem facilmente ser adaptáveis. Os chocolates podem ser trocados por atividades diárias a fazer em família: ver um filme, fazer um bolo, jogar um jogo de tabuleiro, entre tantas outras ideias que podem ser desembrulhadas dia após dia. Desta forma, a criança passa a associar a contagem para o Natal não só aos chocolates, mas também a momentos positivos passados em família, fomentando assim o espírito de Natal.

 

  • Brinquedos e roupas – como é sabido, o Natal significa também partilha, algo que por vezes é difícil de desenvolver de forma simples nas crianças, muitas vezes na fase egocêntrica do seu desenvolvimento. Uma forma de incutir o espírito de partilha pode passar por ajudar a criança a selecionar roupas ou brinquedos que já não sirvam ou que a criança já não use. De seguida, basta procurar uma instituição que esteja a aceitar brinquedos ou roupas. É importante explicar este processo à criança e incluída, fazendo-a entender que não está a perder nada, mas antes a ganhar a oportunidade de passar objetos que já não usa a alguém que irá de certeza dar mais uso.

 

  • Lanches partilhados – sei que esta é uma realidade já presente em diversas escolas: trocar o típico teatro por um lanche partilhado, ou fazê-lo no fim do teatro ou festa. Esta é de facto uma excelente ideia. Ao criar esta oportunidade, desenvolve-se um sentimento de partilha entre a escola, mas também um sentimento de pertença, onde cada criança e família faz parte de uma comunidade maior e onde se sente integrado e aceite, mais uma vez, sentimentos próprios à época natalícia.

 

  • Fazer as próprias prendas – as crianças costumam ser a alegria dos natais das mais diversas famílias, em parte pela felicidade que mostram em abrir as prendas que ansiaram tanto. E todas as crianças sabem o bom que é receber prendas. Mas é também importante que as crianças aprendam a alegria de dar. Ao fabricarem as suas próprias prendas para os familiares, as crianças aprendem a importância de dar, mas também que o valor da prenda não está nem no valor monetário, nem na extravagância, mas antes no símbolo de dar e receber.

 

  • Aproveitar a quadra festiva – acima de tudo, conseguir aproveitar a época festiva. É tão comum que com todo o alvoroço criado à volta do Natal, os adultos vivam num ambiente de stress e preocupação, algo que as crianças sentem, ainda que não processem. Desta forma, é importante aproveitar esta quadra para estar em família, sobretudo com tantos planos, frequentemente gratuitos, que podem ser feitos e desta forma fomentar a ideia do valor da experiência, sobre o bem material.

Sobretudo, aproveitem, porque o Natal tardará um ano a voltar.

Um feliz e santo Natal!

O que pensarão as crianças dos adultos?

Quando é que ficou tão complicado ser criança? Quando é que o simples facto de se ser criança se tornou ciência onde se erra e acerta? Quando é que a infância passou a ser preto no branco?

Aflige-me pensar nisso hoje em dia. A pressão, a expectativa e e a idealização de que as crianças hoje são alvo assemelham-se a trincheiras. Vejo pais, professores, terapeutas e outros a atacarem-se numa medida de quem tem mais razão, passando completamente ao lado da felicidade e realização da criança em si.

Vejo uma sociedade que parece que se esqueceu que um dia já foi criança e que hoje cresceu. Porque no fundo, isso é uma premissa base do ser criança. Hoje é-se criança para um dia se ser adulto. E é esse o nosso papel enquanto educadores: seguirmos passo a passo esta trajetória magnífica, munindo as nossas crianças com todas as ferramentas que precisem e amor, muito amor.

Sim, porque parece que até o amor ficou esquecido. Hoje tratamos as nossas crianças como pequenos robot que têm de encaixar nos nossos rótulos. Porque é tudo ou nada. Ou porque as crianças têm de ficar um dia na escola, mais horas em atividades extracurriculares, e ainda outra hora, ou duas em centros de explicações para fazer os trabalhos de casa, como se o cansaço não fosse prejudicial para a atenção da criança. Ou então queremos banir a criança de todo o tipo de trabalho de casa ou de qualquer rotina ou ordem pré-estabelecida, como se a criança não aprendesse por repetição ou não necessitasse de estrutura para se sentir protegida e poder aprender a ser em sociedade e como se o ter trabalho para casa não aumentasse o seu sentimento de responsabilidade.

Temos hoje crianças passam horas a receber estimulação do mais variado tipo de ecrãs, demorando horas a adormecer. Mas quando estas mesmas crianças são irrequietas ou tiram meros suficientes na escola, são tratadas como fonte de problemas, medicadas e trabalhadas para serem algo que na realidade não são. Temos crianças que ao fugirem ao padrão são etiquetadas com um diagnóstico, não tendo ninguém a perguntar-lhe o que realmente está a sentir. Como se um espirro fosse sintoma de uma só doença. Temos tanto, mas tanto talento a ser desperdiçado. Porque apesar de apregoarmos aos sete ventos que aceitamos as crianças como são, a realidade é que a inteligência ainda se resume ao que se consegue decorar.

Vejo crianças com dificuldades em saúde mental que ainda são tratadas como tendo alguma mania. Sendo olhadas de lado como se tivessem culpa de um comportamento que nem elas próprias ainda conseguem entender. Como se a saúde, por ser mental, fosse menos saúde. Temos crianças que não se sabem auto-regular. Porque nunca aprenderam, porque nunca ninguém lhes ensinou. E em vez de lhe estenderem a mão, temos adultos que ou a hiper protegem, desculpando-a por algo que deve e tem de aprender; ou adultos que a culpam como se tivesse destinada a determinado caminho, só porque ainda não aprendeu a estar ou a ser.

Vejo pais a culparem professores por métodos, como se o único propósito dos professores fosse prejudicar os seus alunos; e vejo professores a culpabilizarem pais,  como se os pais não fizessem sempre o melhor que podem, consoante as circunstâncias.

Vejo crianças imersas em imenso barulho, quando elas não podem nem têm permissão para dizer nada. Vejo uma sociedade que se crê evoluída relativamente à educação, quando ainda não aprendeu o mais importante de tudo: a escutar a vontade da criança.

Por isso, quando vejo este escorrer de críticas, de posições e de debates, pergunto-me: e a criança, o que pensa ela de nós?

A ponte para a diversidade – crianças com necessidades educativas especiais

Vivemos uma sociedade que tenta apresentar valores cada vez mais inclusivos. Por isso, faz todo o sentido pedir agora à escola o desafio de conseguir que todos os alunos, independentemente das suas diferenças, sejam capazes de obter sucesso em meio escolar.

No entanto, esta é a mesma sociedade que se baseia ainda em inúmeros estereótipos e preconceitos, nomeadamente no que diz respeito à deficiência e outras necessidades especiais, sendo que os mesmos são baseados nas ideias e valores das sociedades em que se inserem. Assim, a ideia de integração social, e consequentemente de escola inclusiva, vão estar dependentes do nível de conhecimento de uma sociedade e sua interpretação da diferença, que se vai refletir na organização social, legislação e preparação dos restantes membros e professores para lidar com a diferença.
Por isso a ideia de escola inclusiva e de integração social está altamente dependente da colaboração dos diferentes meios da sociedade, nomeadamente pais e professores.

Segundo o famoso decreto de lei 3/2008 de 7 de janeiro, a escola apresenta a obrigação de aplicar medidas e respostas que sejam adequadas para os alunos com necessidades educativas especiais (NEE) de forma a que estes possam estar enquadrados no ensino regular. Estas alterações implicam a diversificação e a flexibilização do currículo consoante as necessidades do aluno, tanto sentidas na escola, como as apresentadas em outros contextos, sendo que este processo requer o envolvimento tanto de professores como de pais e mesmo terapeutas.

Contudo, na prática é possível denotar um clima de grande oposição entre estes dois intervenientes, muitas vezes pautada pela indiferença e pela recriminação, sobretudo em casos de crianças com NEE em que a forma de agir da família é muitas vezes própria e específica segundo a criança.

Os pais de crianças com NEE sentem-se frequentemente desvalorizados e pouco compreendidos. Estas famílias são frequentemente rotuladas, com falta de apoio, o que leva a família a centralizar os problemas vivenciados, aumentando portanto o sentimento de estigmatização. O problema alastra-se mais quando se pensa no impacto que a deficiência ou que a incapacidade tem na dinâmica familiar no geral, tornando-se em crianças extremamente desafiantes, comportando um stress adicional tanto a nível financeiro, como logístico e familiar.

Por outro lado os professores apontam que com a mudança provocada pelo decreto de lei, foram obrigados a receber alunos para os quais não têm formação específica para lidar, admitindo a falta de apoio pedagógico tanto para lidar com as crianças, como com as próprias famílias. Ou seja, hoje os professores deparam-se com a falta de apoio, materiais e formação para conseguirem dar resposta às necessidades apresentadas pelas crianças.

Mas tanto pais como professores sabem da importância destas crianças serem aceites e integradas no meio escolar. Não só para elas como também para as outras crianças, permitindo uma sociedade heterogénea. Por isso é importante compreender os sentimentos e frustrações associadas tanto para as famílias como para os professores, criando um processo empático entre ambos.

Depois é necessário capacitar os professores no sentido de os preparar para as dificuldades encontradas em sala de aula. No entanto, a solução não passa apenas pelos professores, uma vez que a integração de alunos na sala de aula necessita de pais que sejam interventivos, colocando os professores mais no papel de mediadores.

Por isso, a família tem de ter um contacto regular e uma maior compreensão sobre o trabalho realizado ao nível da escola. Em contraponto, os professores devem apostar no foco nas competências fortes do aluno e da família, respondendo às necessidades apontadas pela mesma. Ou seja, os pais têm de passar a ser chamados a apresentar as suas necessidades, sendo ouvidos, a construindo assim uma ponte de comunicação entre pais e professores, o que tão bem sabemos é o melhor e necessário para as nossas crianças.

A escola que afinal é cinzenta

Atualmente a escola tem sido motivo de grande debate. Seja porque o atual ministro quer ouvir as crianças, porque os pais espanhóis estão a fazer greve aos TPC, seja por estarmos a meio de novembro e as crianças já estarem exaustas… A realidade é que todos concordam que a escola não está adequada às necessidades do quotidiano atual. Mas a concórdia fica por aí. Se por um lado se diz que as crianças cada vez brincam menos, também se fala da necessidade de ter as crianças ocupadas. Se por um lado se fala do perigo das novas tecnologias, também se fala das suas potencialidades. Se por um lado se comenta que o processo deve ser mais valorizado, também se afirma que vivemos numa sociedade cada vez mais orientada para resultados. Se se diz que a escola deve transmitir conhecimento, também se diz que não deve deixar para trás os valores.

O grande problema no meio desta discussão, que a tanta discórdia leva, é que é preciso compreender que a própria sociedade evolui, trazendo novos paradoxos que afetam diretamente a escola. Assim, estes paradoxos significam que ambas as visões são válidas e verdadeiras, tendo sempre que ser entendidas e discutidas na sociedade em que estamos e nos apoios que são oferecidos.

Lembremo-nos que antigamente, quando o atual modelo de escola apareceu, tínhamos crianças que tinham aulas durante apenas uma parte do dia, tendo a mãe frequentemente em casa durante o restante tempo. As crianças moravam relativamente perto da escola, possibilitando o ir e voltar sem necessidade de supervisão. As rotinas familiares andavam de mão dada de forma harmoniosa com a rotina escolar.

Tudo mudou na atualidade. Assim, é verdade que sabemos da capacidade de concentração da criança e da necessidade de descanso, o que poderia levar a ter aulas apenas numa parte do dia. Mas por outro lado, também sabemos que a rede familiar da criança está a trabalhar em horário completo, impossibilitando de proteger e acolher a criança no horário não-escolar. Daí a necessidade de estender o horário escolar e de aparecerem as famosas AEC (atividades extra-curricular). Sabemos atualmente que o tempo livre e a imaginação são factores importantes para a criança, mas por outro lado, também conhecemos a importância da estimulação, do envolvimento em diversos contextos e dos benefícios mesmo sociais da prática de outras atividades fora da escola. Sabemos que as crianças aprendem hoje de forma diferente, de forma mais espontânea e rápida com acesso a novas tecnologias, mas sabemos também da importância do foco, da memória e da concentração, numa sociedade que anda cada vez mais efémera e célere.

A única coisa que me atrevo a dizer que ainda não sabemos é a importância do brincar. Ainda tratamos o brincar como se fosse algo minoritário e desperdício de tempo, quando é na realidade a forma mais valiosa de aprendizagem existente na criança. De facto, no dia em que governos, educadores, pais e outros agentes que intervenham com crianças se apercebam da importância do brincar, metade do sistema educativo fica resolvido.

Repare-se, as sociedades mudaram e com esta mudança, também o sistema educativo é obrigado a mudar. E vai mudando, mas não a uma velocidade rápida o suficiente e sem entender os equilíbrios.

É fundamental que se entenda a necessidade de se motivar as crianças para a aprendizagem por si só. É fundamental que se criem aulas e estratégias de promoção de inteligência emocional e resiliência. É fundamental que exista uma educação motora, mas acima de tudo psicomotora e integrada, que vá além dos princípios académicos e que seja valorizada. É fundamental que se entenda a arte como uma disciplina válida. É fundamental que se compreenda que o ensino das línguas, das ciências e das restantes disciplinas tem de partir de uma base empírica e lúdica. É fundamental que o ensino seja transversal e que aceite a diferença.

Mas é também fundamental que esta mudança seja realista e coerente com a sociedade que existe. Não podemos cair no extremo de deixar a criança aprender apenas o que quer e que lhe dá prazer, porque como adultos, sabemos perfeitamente que não é esse o mundo que a criança vai encontrar.

E não, este equilíbrio não é de todo fácil. Aliás, se o fosse, não haveria tanta discussão.

No entanto, a única forma de este diálogo avançar é construindo uma ponte entre pais e professores, terapeutas e escola, medidas governamentais e famílias. Porque se não dermos o exemplo às nossas crianças, ninguém o dará.

 

O bichinho da ansiedade

O bichinho da ansiedade é um bichinho muito comum. Na realidade, bem mais comum do que aquilo que se acredita. Grande parte das vezes o bichinho da ansiedade aparece só esporadicamente e logo, logo se vai embora. No entanto, algumas das nossas crianças convivem diariamente com o bichinho da ansiedade, o que se torna muito complicado. É quase como ter para animal doméstico um animal selvagem.

Então, antes de mais, temos de esclarecer que a ansiedade é um mecanismo natural, essencial e de extrema importância. Este mecanismo é ativado de forma involuntária e automática sempre que o nosso cérebro deteta que estamos em perigo ou considera que devemos estar em alerta. Após ser ativado, o nosso corpo vai passar por uma data de reações naturais: o ritmo cardíaco acelera, aumentam os suores, a frequência respiratória aumenta, podemos sentir tremores. Ou seja, a ansiedade, muito mais do que um estado mental, ou do que um fenómeno psicológico, é um processo corporal, que vai trazer alterações em todo o corpo. Estas alterações são o que permitem uma resposta de luta-fuga. Ou seja, quando o nosso corpo começa a passar por todas aquelas alterações, na realidade está a preparar-se para fugir ou para lutar. Esta decisão geralmente é tomada numa questão de segundos e, após passar o perigo, o corpo regressa gradualmente ao normal. E claro, estas alterações são tão maiores quanto o estímulo inicial. Quer dizer, existe um espectro entre o ansioso até positivo, ao ligeiro desconforto, e até mesmo ao pânico, na outra ponta do espectro.

A questão prende-se então ao quando é que o bichinho da ansiedade começa a ser demasiado inoportuno. Normalmente isto acontece quando o bichinho está sempre presente, ou seja, estamos permanentemente em estado de alerta, ou então quando nos leva a ter reações desadaptadas, o que nesse caso poderá se refletir numa perturbação da ansiedade. Claro que quando nos referimos a este quadro, ou à ansiedade no geral, estamos a falar de algo involuntário que muitas vezes é difícil de explicar mesmo para adultos.

No caso das crianças torna-se ainda mais complicado, uma vez que estas normalmente não conseguem identificar a ansiedade. Quando o conseguem, ou conseguem identificar o mau-estar e desconforto, é recorrente que não consigam explicar o porquê.

Dado às diferenças da expressão da ansiedade entre adultos e crianças, não é de todo raro que os sintomas da ansiedade sejam descurados, passem despercebidos ou que sejam confundidos com outros quadros. Por este motivo, é de extrema importância tanto para pais, como para professores e terapeutas estar atentos, para perceber se este bichinho está a importunar as nossas crianças.

-Preocupação excessiva – apesar das crianças poderem já estar a frequentar a escola e terem de gerir os trabalhos de casa, as atividades extracurriculares e ainda os testes (o que por si só já significa mais pressão do que aquela que as crianças deveriam suportar), a realidade é que a infância é uma altura de calma e passividade. Uma criança que esteja constantemente a preocupar-se de forma excessiva com o decorrer dos dias, das semanas e dos meses, poderá ser uma criança que esteja a dar sinais de ansiedade.

Dificuldades em gerir o sono – este sintoma é bastante parecido com aquele sentido pelos adultos. Crianças que estejam demasiado ansiosas são crianças que terão dificuldades em adormecer ou que vão evitar a hora de ir para a cama. No entanto, este sintoma poderá facilmente passar despercebido aos pais em crianças que vão para a cama mas que depois demorem em adormecer. Neste caso, será mais visível no dia seguinte quando a criança andar mais sonolenta durante o dia, e que comece a acordar gradualmente com o aproximar da hora de ir dormir. Tanto no ponto anterior como neste, rotinas programadas poderão ajudar, sendo que este tema já foi aqui debatido (https://terapeutaanafonseca.wordpress.com/2016/09/26/5-topicos-sobre-a-importancia-das-rotinas/

Dificuldades de concentração – como é claro se a criança está preocupada e ansiosa, terá mais dificuldades em concentrar-se nas suas diversas atividades, nomeadamente académicas, até porque as crianças apresentam uma maior dificuldade de auto-regulação e do foco da atenção para determinadas tarefas. Desta forma, se a criança apresenta constantemente sinais de distração ou do famoso “cabeça na lua”, poderá significar que naquele momento a criança está de tal forma preocupada com outro assunto que não tem a capacidade de mobilizar a sua atenção para o que está a ser pedido.

Irritabilidade ou agressividade – estes dois tópicos são de extrema importância, até pela facilidade com que são confundidos com outras patologias. A irritabilidade e a agressividade no caso da ansiedade podem ter vários fundos. Em primeiro lugar poderão estar ligados com outros factores, tais como as dificuldades no sono que podem gerar maior frustração e agressividade. Por outro lado, o sentir ansiedade para a criança pode ser muito difícil de gerir, motivo pelo qual a criança poderá perder o controlo com maior facilidade. Contudo, importa referir que a ansiedade pode ter co-morbilidade com outras perturbações do desenvolvimento, tal como a PHDA.

Resistência à mudança – ou então dificuldade em processar a contrariedade e necessidade de controlo. Isto deve-se à necessidade de controlo que a criança tem para conseguir sentir-se segura e desta forma atenuar a ansiedade. No entanto, se for impeditivo para a criança, deve ser visto como um sinal de alerta.

Dificuldades na linguagem e gaguez – apesar das dificuldades no discurso representarem um campo vasto sobre o qual se deve ter muita atenção, a realidade é que a ansiedade pode moldar o discurso, provocando algumas dificuldades e, em muitos casos a gaguez.

Rigidez e agitação psicomotora – como já foi dito o primeiro veículo de comunicação que a criança controla é o corpo. Aliás, como explicado, a ansiedade vai ter respostas corporais de luta-fuga, nomeadamente o ritmo cardíaco e a respiração, o que por si só, pode levar a uma maior rigidez tónica e a uma maior sensação de agitação. Por outro lado, se a criança não processa a ansiedade e o motivo de estar ansiosa, a expressão será seguramente pelo corpo. Estas são também crianças que frequentemente gesticulam de forma excessiva ou que apresentam tiques motores.

Somatização – esta palavra é realmente complicada, mas significa apenas que o corpo começa a espelhar a ansiedade a um nível muito elevado. Este é o caso de crianças que apresentem muitas dores de cabeça, de barriga, vómitos ou diarreias sem motivo médico aparente. Na realidade, não é que as crianças não sintam as dores, mas é mais do que fisiológico, é o psicológico a refletir-se no corpo e a dar o sinal de alerta.

Estes são apenas alguns dos sinais a que devemos estar atentos. Contudo, caso estes sejam identificados, o adulto não deve transmitir ainda mais insegurança e preocupação, uma vez que isso só trará mais ansiedade. Pelo contrário, os pais e educadores devem ser uma figura de referência e segurança, tranquilizando a criança, de forma a baixar os níveis de ansiedade. Existem diversas formas de relaxar que podem ser incutidas no quotidiano e que podem ajudar as crianças. Em todo o caso, caso os educadores ou os pais pensem que é necessário, podem e devem sempre consultar um profissional de saúde para mais esclarecimentos.

“Podemos voltar atrás?”

Entrámos na sala e, como de costume, dirigi-me imediatamente para o colchão para me sentar.

“Podemos voltar ao início?” – perguntou a criança.

“Como assim volar ao início?”

“Não comecei bem, quero começar outra vez. Quero apagar a minha entrada na sala e entrar de novo.”

“Sabes, é mesmo assim, por vezes acontecem coisas que gostaríamos de apagar” – enquanto dizia estas palavras, o sorriso da criança não desvaneceu, mas todo o corpo dele gritava por ajuda. É que por vezes as crianças são mais do que alegria e sorrisos e por vezes só mesmo no corpo é que se sente. Nisto a criança entrou e saiu da sala 3 vezes, das 3 vezes a fazer a mesma pergunta.

“Mas o que fez a tua entrada hoje ser diferente das entradas no outro dia?”

“É que eu entrei e senti-me triste. E eu não me posso sentir triste. Eu venho aqui para tu me fazeres sentir bem. Os meus pais ficam muito preocupados quando me vêm triste, por isso, eu nunca estou triste. Ajuda-me a não estar triste.”

Mais uma vez, uma história, sem ser nenhuma história em particular. Neste diálogo, que tem muito  de real, revejo mais do que uma mão cheia de crianças. A realidade é que hoje em dia as nossas crianças não sabem sentir-se tristes, e mais preocupante, temos neste momento pais e crianças que, com uma ânsia completamente justificável de quererem ver os filhos felizes, não sabem reagir perante a tristeza dos mesmos.

É uma realidade que ver uma criança triste parte o coração, basta conviver com crianças para o saber. No entanto, nem pais, nem professores, nem terapeutas têm o poder de proteger a criança de tudo, de forma a que esta nunca tenha sentimentos menos agradáveis como raiva, angústia, ansiedade e tristeza. Como adultos sabemos que estes sentimentos fazem parte da nossa vida, e se o aprendemos foi durante o nosso crescimento. Desta forma, negar estes sentimentos às crianças tem duas consequências, ambas nefastas.

A primeira passa por uma construção irreal do que rodeia a criança. Ao proteger a um nível máximo as crianças, de forma a que estas não vivenciem dor ou sofrimento, estamos a passar a mensagem de que no mundo tudo as irá proteger e que, por isso, ela é imune aos acontecimentos negativos. Este ponto é particularmente prejudicial uma vez que não corresponde à realidade. Mais tarde ou mais cedo a criança irá deparar-se com dificuldades e obstáculos e caso não esteja preparada para tal não terá as ferramentas necessárias para lidar com essa frustração.

Em segundo lugar, e igualmente importante, estamos a criar um sentimento carregado de culpa para a criança. Frequentemente, nós adultos, sentimos tristeza mesmo sem nenhum motivo aparente. É assim. E ao longo da nossa vida vamos aprendendo que existem dias melhores, dias piores e que a tristeza vai e vem. No entanto, quando dizemos a uma criança que esta não tem o direito de sentir tristeza, ou que esta sentir tristeza inquieta os pais a um nível problemático, estamos a passar a mensagem de que a criança está a vivenciar ou a sentir algo que não deveria e que preocupa os adultos.

Claro que nos preocupamos quando as crianças se sentem menos bem, faz parte do nosso papel enquanto adultos. No entanto, esta preocupação deve ser passada como algo positivo, porque nos preocupamos com ela, e não como negativo no sentido de que esta não deveria sentir o que sente. A linha é ténue, mas ainda assim, são coisas diferentes.

Sobretudo neste dia de sensibilização para a saúde mental, gostaria de ressalvar este pormenor. Existem crianças a viver com depressão e com uma tristeza de um nível extremamente elevado. Estas crianças, visto a depressão infantil se expressar de diversas formas, muitas vezes são crianças extremamente agitadas, inibidas, ou mesmo desajustadas de nível social, mas com um sofrimento inquestionável.  Algum pai pensa em descurar uma gripe? Claro que não, provoca mau estar à criança e pode ser muito prejudicial. Por esse mesmo motivo, importa estar atento a alguns sinais que as crianças possam passar de mau estar psicológico e, quando efetivamente diagnosticadas, ser empáticos e perceber o caminho a traçar, porque estar francamente triste pode ser tão, ou mesmo mais, nefasto do que qualquer constipação.

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