A ponte para a diversidade – crianças com necessidades educativas especiais

Vivemos uma sociedade que tenta apresentar valores cada vez mais inclusivos. Por isso, faz todo o sentido pedir agora à escola o desafio de conseguir que todos os alunos, independentemente das suas diferenças, sejam capazes de obter sucesso em meio escolar.

No entanto, esta é a mesma sociedade que se baseia ainda em inúmeros estereótipos e preconceitos, nomeadamente no que diz respeito à deficiência e outras necessidades especiais, sendo que os mesmos são baseados nas ideias e valores das sociedades em que se inserem. Assim, a ideia de integração social, e consequentemente de escola inclusiva, vão estar dependentes do nível de conhecimento de uma sociedade e sua interpretação da diferença, que se vai refletir na organização social, legislação e preparação dos restantes membros e professores para lidar com a diferença.
Por isso a ideia de escola inclusiva e de integração social está altamente dependente da colaboração dos diferentes meios da sociedade, nomeadamente pais e professores.

Segundo o famoso decreto de lei 3/2008 de 7 de janeiro, a escola apresenta a obrigação de aplicar medidas e respostas que sejam adequadas para os alunos com necessidades educativas especiais (NEE) de forma a que estes possam estar enquadrados no ensino regular. Estas alterações implicam a diversificação e a flexibilização do currículo consoante as necessidades do aluno, tanto sentidas na escola, como as apresentadas em outros contextos, sendo que este processo requer o envolvimento tanto de professores como de pais e mesmo terapeutas.

Contudo, na prática é possível denotar um clima de grande oposição entre estes dois intervenientes, muitas vezes pautada pela indiferença e pela recriminação, sobretudo em casos de crianças com NEE em que a forma de agir da família é muitas vezes própria e específica segundo a criança.

Os pais de crianças com NEE sentem-se frequentemente desvalorizados e pouco compreendidos. Estas famílias são frequentemente rotuladas, com falta de apoio, o que leva a família a centralizar os problemas vivenciados, aumentando portanto o sentimento de estigmatização. O problema alastra-se mais quando se pensa no impacto que a deficiência ou que a incapacidade tem na dinâmica familiar no geral, tornando-se em crianças extremamente desafiantes, comportando um stress adicional tanto a nível financeiro, como logístico e familiar.

Por outro lado os professores apontam que com a mudança provocada pelo decreto de lei, foram obrigados a receber alunos para os quais não têm formação específica para lidar, admitindo a falta de apoio pedagógico tanto para lidar com as crianças, como com as próprias famílias. Ou seja, hoje os professores deparam-se com a falta de apoio, materiais e formação para conseguirem dar resposta às necessidades apresentadas pelas crianças.

Mas tanto pais como professores sabem da importância destas crianças serem aceites e integradas no meio escolar. Não só para elas como também para as outras crianças, permitindo uma sociedade heterogénea. Por isso é importante compreender os sentimentos e frustrações associadas tanto para as famílias como para os professores, criando um processo empático entre ambos.

Depois é necessário capacitar os professores no sentido de os preparar para as dificuldades encontradas em sala de aula. No entanto, a solução não passa apenas pelos professores, uma vez que a integração de alunos na sala de aula necessita de pais que sejam interventivos, colocando os professores mais no papel de mediadores.

Por isso, a família tem de ter um contacto regular e uma maior compreensão sobre o trabalho realizado ao nível da escola. Em contraponto, os professores devem apostar no foco nas competências fortes do aluno e da família, respondendo às necessidades apontadas pela mesma. Ou seja, os pais têm de passar a ser chamados a apresentar as suas necessidades, sendo ouvidos, a construindo assim uma ponte de comunicação entre pais e professores, o que tão bem sabemos é o melhor e necessário para as nossas crianças.

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A escola que afinal é cinzenta

Atualmente a escola tem sido motivo de grande debate. Seja porque o atual ministro quer ouvir as crianças, porque os pais espanhóis estão a fazer greve aos TPC, seja por estarmos a meio de novembro e as crianças já estarem exaustas… A realidade é que todos concordam que a escola não está adequada às necessidades do quotidiano atual. Mas a concórdia fica por aí. Se por um lado se diz que as crianças cada vez brincam menos, também se fala da necessidade de ter as crianças ocupadas. Se por um lado se fala do perigo das novas tecnologias, também se fala das suas potencialidades. Se por um lado se comenta que o processo deve ser mais valorizado, também se afirma que vivemos numa sociedade cada vez mais orientada para resultados. Se se diz que a escola deve transmitir conhecimento, também se diz que não deve deixar para trás os valores.

O grande problema no meio desta discussão, que a tanta discórdia leva, é que é preciso compreender que a própria sociedade evolui, trazendo novos paradoxos que afetam diretamente a escola. Assim, estes paradoxos significam que ambas as visões são válidas e verdadeiras, tendo sempre que ser entendidas e discutidas na sociedade em que estamos e nos apoios que são oferecidos.

Lembremo-nos que antigamente, quando o atual modelo de escola apareceu, tínhamos crianças que tinham aulas durante apenas uma parte do dia, tendo a mãe frequentemente em casa durante o restante tempo. As crianças moravam relativamente perto da escola, possibilitando o ir e voltar sem necessidade de supervisão. As rotinas familiares andavam de mão dada de forma harmoniosa com a rotina escolar.

Tudo mudou na atualidade. Assim, é verdade que sabemos da capacidade de concentração da criança e da necessidade de descanso, o que poderia levar a ter aulas apenas numa parte do dia. Mas por outro lado, também sabemos que a rede familiar da criança está a trabalhar em horário completo, impossibilitando de proteger e acolher a criança no horário não-escolar. Daí a necessidade de estender o horário escolar e de aparecerem as famosas AEC (atividades extra-curricular). Sabemos atualmente que o tempo livre e a imaginação são factores importantes para a criança, mas por outro lado, também conhecemos a importância da estimulação, do envolvimento em diversos contextos e dos benefícios mesmo sociais da prática de outras atividades fora da escola. Sabemos que as crianças aprendem hoje de forma diferente, de forma mais espontânea e rápida com acesso a novas tecnologias, mas sabemos também da importância do foco, da memória e da concentração, numa sociedade que anda cada vez mais efémera e célere.

A única coisa que me atrevo a dizer que ainda não sabemos é a importância do brincar. Ainda tratamos o brincar como se fosse algo minoritário e desperdício de tempo, quando é na realidade a forma mais valiosa de aprendizagem existente na criança. De facto, no dia em que governos, educadores, pais e outros agentes que intervenham com crianças se apercebam da importância do brincar, metade do sistema educativo fica resolvido.

Repare-se, as sociedades mudaram e com esta mudança, também o sistema educativo é obrigado a mudar. E vai mudando, mas não a uma velocidade rápida o suficiente e sem entender os equilíbrios.

É fundamental que se entenda a necessidade de se motivar as crianças para a aprendizagem por si só. É fundamental que se criem aulas e estratégias de promoção de inteligência emocional e resiliência. É fundamental que exista uma educação motora, mas acima de tudo psicomotora e integrada, que vá além dos princípios académicos e que seja valorizada. É fundamental que se entenda a arte como uma disciplina válida. É fundamental que se compreenda que o ensino das línguas, das ciências e das restantes disciplinas tem de partir de uma base empírica e lúdica. É fundamental que o ensino seja transversal e que aceite a diferença.

Mas é também fundamental que esta mudança seja realista e coerente com a sociedade que existe. Não podemos cair no extremo de deixar a criança aprender apenas o que quer e que lhe dá prazer, porque como adultos, sabemos perfeitamente que não é esse o mundo que a criança vai encontrar.

E não, este equilíbrio não é de todo fácil. Aliás, se o fosse, não haveria tanta discussão.

No entanto, a única forma de este diálogo avançar é construindo uma ponte entre pais e professores, terapeutas e escola, medidas governamentais e famílias. Porque se não dermos o exemplo às nossas crianças, ninguém o dará.

 

O bichinho da ansiedade

O bichinho da ansiedade é um bichinho muito comum. Na realidade, bem mais comum do que aquilo que se acredita. Grande parte das vezes o bichinho da ansiedade aparece só esporadicamente e logo, logo se vai embora. No entanto, algumas das nossas crianças convivem diariamente com o bichinho da ansiedade, o que se torna muito complicado. É quase como ter para animal doméstico um animal selvagem.

Então, antes de mais, temos de esclarecer que a ansiedade é um mecanismo natural, essencial e de extrema importância. Este mecanismo é ativado de forma involuntária e automática sempre que o nosso cérebro deteta que estamos em perigo ou considera que devemos estar em alerta. Após ser ativado, o nosso corpo vai passar por uma data de reações naturais: o ritmo cardíaco acelera, aumentam os suores, a frequência respiratória aumenta, podemos sentir tremores. Ou seja, a ansiedade, muito mais do que um estado mental, ou do que um fenómeno psicológico, é um processo corporal, que vai trazer alterações em todo o corpo. Estas alterações são o que permitem uma resposta de luta-fuga. Ou seja, quando o nosso corpo começa a passar por todas aquelas alterações, na realidade está a preparar-se para fugir ou para lutar. Esta decisão geralmente é tomada numa questão de segundos e, após passar o perigo, o corpo regressa gradualmente ao normal. E claro, estas alterações são tão maiores quanto o estímulo inicial. Quer dizer, existe um espectro entre o ansioso até positivo, ao ligeiro desconforto, e até mesmo ao pânico, na outra ponta do espectro.

A questão prende-se então ao quando é que o bichinho da ansiedade começa a ser demasiado inoportuno. Normalmente isto acontece quando o bichinho está sempre presente, ou seja, estamos permanentemente em estado de alerta, ou então quando nos leva a ter reações desadaptadas, o que nesse caso poderá se refletir numa perturbação da ansiedade. Claro que quando nos referimos a este quadro, ou à ansiedade no geral, estamos a falar de algo involuntário que muitas vezes é difícil de explicar mesmo para adultos.

No caso das crianças torna-se ainda mais complicado, uma vez que estas normalmente não conseguem identificar a ansiedade. Quando o conseguem, ou conseguem identificar o mau-estar e desconforto, é recorrente que não consigam explicar o porquê.

Dado às diferenças da expressão da ansiedade entre adultos e crianças, não é de todo raro que os sintomas da ansiedade sejam descurados, passem despercebidos ou que sejam confundidos com outros quadros. Por este motivo, é de extrema importância tanto para pais, como para professores e terapeutas estar atentos, para perceber se este bichinho está a importunar as nossas crianças.

-Preocupação excessiva – apesar das crianças poderem já estar a frequentar a escola e terem de gerir os trabalhos de casa, as atividades extracurriculares e ainda os testes (o que por si só já significa mais pressão do que aquela que as crianças deveriam suportar), a realidade é que a infância é uma altura de calma e passividade. Uma criança que esteja constantemente a preocupar-se de forma excessiva com o decorrer dos dias, das semanas e dos meses, poderá ser uma criança que esteja a dar sinais de ansiedade.

Dificuldades em gerir o sono – este sintoma é bastante parecido com aquele sentido pelos adultos. Crianças que estejam demasiado ansiosas são crianças que terão dificuldades em adormecer ou que vão evitar a hora de ir para a cama. No entanto, este sintoma poderá facilmente passar despercebido aos pais em crianças que vão para a cama mas que depois demorem em adormecer. Neste caso, será mais visível no dia seguinte quando a criança andar mais sonolenta durante o dia, e que comece a acordar gradualmente com o aproximar da hora de ir dormir. Tanto no ponto anterior como neste, rotinas programadas poderão ajudar, sendo que este tema já foi aqui debatido (https://terapeutaanafonseca.wordpress.com/2016/09/26/5-topicos-sobre-a-importancia-das-rotinas/

Dificuldades de concentração – como é claro se a criança está preocupada e ansiosa, terá mais dificuldades em concentrar-se nas suas diversas atividades, nomeadamente académicas, até porque as crianças apresentam uma maior dificuldade de auto-regulação e do foco da atenção para determinadas tarefas. Desta forma, se a criança apresenta constantemente sinais de distração ou do famoso “cabeça na lua”, poderá significar que naquele momento a criança está de tal forma preocupada com outro assunto que não tem a capacidade de mobilizar a sua atenção para o que está a ser pedido.

Irritabilidade ou agressividade – estes dois tópicos são de extrema importância, até pela facilidade com que são confundidos com outras patologias. A irritabilidade e a agressividade no caso da ansiedade podem ter vários fundos. Em primeiro lugar poderão estar ligados com outros factores, tais como as dificuldades no sono que podem gerar maior frustração e agressividade. Por outro lado, o sentir ansiedade para a criança pode ser muito difícil de gerir, motivo pelo qual a criança poderá perder o controlo com maior facilidade. Contudo, importa referir que a ansiedade pode ter co-morbilidade com outras perturbações do desenvolvimento, tal como a PHDA.

Resistência à mudança – ou então dificuldade em processar a contrariedade e necessidade de controlo. Isto deve-se à necessidade de controlo que a criança tem para conseguir sentir-se segura e desta forma atenuar a ansiedade. No entanto, se for impeditivo para a criança, deve ser visto como um sinal de alerta.

Dificuldades na linguagem e gaguez – apesar das dificuldades no discurso representarem um campo vasto sobre o qual se deve ter muita atenção, a realidade é que a ansiedade pode moldar o discurso, provocando algumas dificuldades e, em muitos casos a gaguez.

Rigidez e agitação psicomotora – como já foi dito o primeiro veículo de comunicação que a criança controla é o corpo. Aliás, como explicado, a ansiedade vai ter respostas corporais de luta-fuga, nomeadamente o ritmo cardíaco e a respiração, o que por si só, pode levar a uma maior rigidez tónica e a uma maior sensação de agitação. Por outro lado, se a criança não processa a ansiedade e o motivo de estar ansiosa, a expressão será seguramente pelo corpo. Estas são também crianças que frequentemente gesticulam de forma excessiva ou que apresentam tiques motores.

Somatização – esta palavra é realmente complicada, mas significa apenas que o corpo começa a espelhar a ansiedade a um nível muito elevado. Este é o caso de crianças que apresentem muitas dores de cabeça, de barriga, vómitos ou diarreias sem motivo médico aparente. Na realidade, não é que as crianças não sintam as dores, mas é mais do que fisiológico, é o psicológico a refletir-se no corpo e a dar o sinal de alerta.

Estes são apenas alguns dos sinais a que devemos estar atentos. Contudo, caso estes sejam identificados, o adulto não deve transmitir ainda mais insegurança e preocupação, uma vez que isso só trará mais ansiedade. Pelo contrário, os pais e educadores devem ser uma figura de referência e segurança, tranquilizando a criança, de forma a baixar os níveis de ansiedade. Existem diversas formas de relaxar que podem ser incutidas no quotidiano e que podem ajudar as crianças. Em todo o caso, caso os educadores ou os pais pensem que é necessário, podem e devem sempre consultar um profissional de saúde para mais esclarecimentos.

“Podemos voltar atrás?”

Entrámos na sala e, como de costume, dirigi-me imediatamente para o colchão para me sentar.

“Podemos voltar ao início?” – perguntou a criança.

“Como assim volar ao início?”

“Não comecei bem, quero começar outra vez. Quero apagar a minha entrada na sala e entrar de novo.”

“Sabes, é mesmo assim, por vezes acontecem coisas que gostaríamos de apagar” – enquanto dizia estas palavras, o sorriso da criança não desvaneceu, mas todo o corpo dele gritava por ajuda. É que por vezes as crianças são mais do que alegria e sorrisos e por vezes só mesmo no corpo é que se sente. Nisto a criança entrou e saiu da sala 3 vezes, das 3 vezes a fazer a mesma pergunta.

“Mas o que fez a tua entrada hoje ser diferente das entradas no outro dia?”

“É que eu entrei e senti-me triste. E eu não me posso sentir triste. Eu venho aqui para tu me fazeres sentir bem. Os meus pais ficam muito preocupados quando me vêm triste, por isso, eu nunca estou triste. Ajuda-me a não estar triste.”

Mais uma vez, uma história, sem ser nenhuma história em particular. Neste diálogo, que tem muito  de real, revejo mais do que uma mão cheia de crianças. A realidade é que hoje em dia as nossas crianças não sabem sentir-se tristes, e mais preocupante, temos neste momento pais e crianças que, com uma ânsia completamente justificável de quererem ver os filhos felizes, não sabem reagir perante a tristeza dos mesmos.

É uma realidade que ver uma criança triste parte o coração, basta conviver com crianças para o saber. No entanto, nem pais, nem professores, nem terapeutas têm o poder de proteger a criança de tudo, de forma a que esta nunca tenha sentimentos menos agradáveis como raiva, angústia, ansiedade e tristeza. Como adultos sabemos que estes sentimentos fazem parte da nossa vida, e se o aprendemos foi durante o nosso crescimento. Desta forma, negar estes sentimentos às crianças tem duas consequências, ambas nefastas.

A primeira passa por uma construção irreal do que rodeia a criança. Ao proteger a um nível máximo as crianças, de forma a que estas não vivenciem dor ou sofrimento, estamos a passar a mensagem de que no mundo tudo as irá proteger e que, por isso, ela é imune aos acontecimentos negativos. Este ponto é particularmente prejudicial uma vez que não corresponde à realidade. Mais tarde ou mais cedo a criança irá deparar-se com dificuldades e obstáculos e caso não esteja preparada para tal não terá as ferramentas necessárias para lidar com essa frustração.

Em segundo lugar, e igualmente importante, estamos a criar um sentimento carregado de culpa para a criança. Frequentemente, nós adultos, sentimos tristeza mesmo sem nenhum motivo aparente. É assim. E ao longo da nossa vida vamos aprendendo que existem dias melhores, dias piores e que a tristeza vai e vem. No entanto, quando dizemos a uma criança que esta não tem o direito de sentir tristeza, ou que esta sentir tristeza inquieta os pais a um nível problemático, estamos a passar a mensagem de que a criança está a vivenciar ou a sentir algo que não deveria e que preocupa os adultos.

Claro que nos preocupamos quando as crianças se sentem menos bem, faz parte do nosso papel enquanto adultos. No entanto, esta preocupação deve ser passada como algo positivo, porque nos preocupamos com ela, e não como negativo no sentido de que esta não deveria sentir o que sente. A linha é ténue, mas ainda assim, são coisas diferentes.

Sobretudo neste dia de sensibilização para a saúde mental, gostaria de ressalvar este pormenor. Existem crianças a viver com depressão e com uma tristeza de um nível extremamente elevado. Estas crianças, visto a depressão infantil se expressar de diversas formas, muitas vezes são crianças extremamente agitadas, inibidas, ou mesmo desajustadas de nível social, mas com um sofrimento inquestionável.  Algum pai pensa em descurar uma gripe? Claro que não, provoca mau estar à criança e pode ser muito prejudicial. Por esse mesmo motivo, importa estar atento a alguns sinais que as crianças possam passar de mau estar psicológico e, quando efetivamente diagnosticadas, ser empáticos e perceber o caminho a traçar, porque estar francamente triste pode ser tão, ou mesmo mais, nefasto do que qualquer constipação.

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As dicas de ouro das atividades extracurriculares

Nesta altura do ano, em outubro mais precisamente, o início do ano letivo já vai longe, as aulas já seguem um bom ritmo e começa a preocupação com as atividades extracurriculares. É exatamente no início do mês que as aulas experimentais são feitas e que se aproveita para a inscrição, aproveitando o mês completo.

Assim, como já havia falado, venho então apresentar dicas que são fundamentais ter em mente quando se escolhe as atividades extracurriculares das crianças. Peço desde já atenção, estas dicas devem ser sempre adequadas ao contexto familiar de cada um e ainda à realidade e importância que as atividades tenham. Ou seja, todas estas dicas são flexíveis ao quotidiano de cada família e de cada criança.

Agora, falando das atividades extracurriculares em si, estas são o que o próprio nome indica: algo extra à atividade curricular obrigatória, ou seja, a escola. Logo, importa recordar que as crianças já estão o dia inteiro em sala de aula, a trabalhar e a aprender. Ainda assim, a escola foca-se bastante na atividade cognitiva e no desenvolvimento linguístico e matemático, muitas vezes deixando para trás o desenvolvimento criativo e motor-cinestésico da criança. Por isso as atividades extracurriculares são de extrema importância: ajudam a criança a desenvolver um espírito de pertença a um outro lugar que não apenas a turma, e permitem o desenvolvimento de outras competências, que chegam a ser tão importantes como as académicas.

Mas atenção, com o nível de oferta que existe hoje em dia, é fácil de nos perdermos e acabarmos por tomar decisões que se tornam difíceis de manter durante o ano letivo. Por isso mesmo, deixo aqui as dicas que eu considero mais importantes para a criança e para a família na hora de escolher as atividades extracurriculares:

A logística tem de ser fácil
Em consulta é frequente aperceber-me que os pais precisam de fazer autênticas acrobacias para conseguir levar e trazer os filhos, por vezes vários, em várias atividades, em vários locais. Estas rotinas podem parecer fazíveis no horário teórico, mas na prática tornam-se insustentáveis pela fatiga e pela exaustão que representam. Tentem manter atividades que sejam realistas para não aumentar a tensão entre os pais e as crianças e levar a mais discussões diárias. Procurar respostas na rede social de apoio pode ser uma estratégia, de forma a diminuir o esforço dos pais. Caso tal não seja possível, procurar soluções que sejam mais perto da escola ou de casa sempre facilitam e diminuem o tempo de viagem. 

Os horários têm de ser compatíveis com os de uma criança
Este foi o último tema a ser abordado: as crianças suportam neste momento um horário mais pesado que o de um adulto, nem tanto pela escola, que geralmente acaba pelas 16.00, mas antes pela acumulação do ATL, mais atividades extracurriculares, mais explicação. É demasiado frequente ouvir pais a relatar que as crianças têm aulas de desporto ou de música entre as 19.30 e as 20.30. Isto significa que geralmente só estão em casa pelas 21.00, a jantar pelas 21.30 e que o resto do serão é passado em stress entre trabalhos de casa, preparação para ir para a cama e, no fundo, sem tempo de qualidade em família. Por isso, é necessário ter em atenção o horário e como é que a atividade vai ter impacto no resto do dia da criança e da família.

A atividade tem de ser suportável pela família
Existem desportos e atividades culturais – teatro, música – que são extremamente apelativos para a família dado os benefícios que apresentam. É também normal que estas atividades apresentem um preço extremamente elevado e que é impossível suportar todos os meses durante todo o ano letivo. Desta forma, não se pode deixar este fator de lado na altura da escolha das atividades. Existem várias formas de contornar o problema e é comum que estas atividades existam com preços muito mais acessíveis em outras estruturas menos conhecidas. Caso tal não seja possível, importa ponderar bem junto da criança sobre a importância dessa atividade com ela e sobre o peso que terá sobre a família.

A criança tem de gostar da atividade
Analisemos: a criança passa o dia inteiro na escola a fazer a sua principal ocupação: aprender. Muitas vezes sai da escola para ir para o ATL onde continua a realizar tarefas, muitas vezes académicas, como fazer os trabalhos de casa. Se após estas tarefas ainda as formos colocar numa atividade que estas não obtenham prazer, estamos apenas a aumentar o nível de ansiedade e de angústia das crianças. Mas atenção, que ela tenha que gostar, não equivale ao mesmo que correr bem todas as semanas. As atividades extracurriculares também se baseiam em aprender competências, o que por vezes demora mais tempo. Isso não é razão para a criança desistir sempre que não ganha ou que não consegue logo na primeira tentativa. Cabe aos pais e às crianças fazerem um acordo que defina que as mesmas tenham de se manter nas mesmas atividades até ao final do período ou do ano letivo, de forma a ultrapassarem a adversidade e aprenderem, e assim, perceber-se se era algo momentâneo, ou se não existe mesmo prazer naquela atividade.

Ou seja, as atividades extracurriculares são algo muito rico e que permite às crianças aprenderem diversas competências que serão importantes no futuro, para além de lhes permitir desanuviar de um dia de aulas e de trabalho. No entanto, importa a família pesar bem todos os factores inerentes em praticar uma atividade extracurricular de forma a que seja um momento tranquilo para toda a família.

E quando é que ele brinca mãe?

“Então as aulas acabam as 16.30, correto?”

“Sim, mas depois ele segue para o ATL”

“Certo, e se marcássemos a sessão para as 18.00 então?”

“Não pode ser, ele a essa hora está a ir para a natação…”

“Então, a que horas poderia ser?”

“Não sei, mas provavelmente entre a aula, o balneário e o trânsito… Por volta das 19.30?”

“A essa hora o serviço já está a fechar e possivelmente fica muito tarde para depois o menino sair daqui as 20.30 e ainda ir jantar, brincar um pouco e dormir… Se calhar a outro dia da semana, o que acha?”

“É um pouco indiferente sabe, é que tem a natação as terças e quintas, depois tem o futebol às quartas e sextas, e tem dias em que depois ainda tem o piano e a explicação… Normalmente só estamos a jantar as 21… E é sempre uma correria, fica impossível a correr de um lado para o outro… Estar na cama às 22.00 é sempre um desafio…”

“Então quando é que ele brinca?”

Silêncio…

Esta conversa não é nenhuma conversa em particular, mas podia ser tanta conversa que tenho tido com diversos pais neste início do ano. Praticamente todos. Quase todos os pais que contactei no início deste ano letivo me disseram que o horário que preferiam seria o horário das 19.00 às 20.00, dado à indisponibilidade das crianças.

Então decidi fazer algumas contas: a maioria das crianças está na escola a ter aulas entre as 8.30 e as 16.00, sobrando depois o lanche que dura até as 16.30. Após este período costumam ir diretos para o centro de estudos ou para o ATL onde ficam, de novo a estudar, a fazer TPC ou outras tarefas académicas, até as 18.00. Após este período quase todos eles costumam ter atividades desportivas ou culturais que se prolongam até as 19.30. Se analisarmos bem estamos a pedir às nossas crianças que tenham um dia de trabalho entre as 8.30 e as 19.30. Isto significa 9 horas de trabalho intensivo, a crianças que frequentemente não têm mais do que 10 anos.

Pior, ainda pedimos isto às nossas crianças obrigando as mesmas a estar a maioria do tempo em silêncio, paradas e concentradas. E quando no final do dia a energia extravasa questionamos sobre o porquê.

A realidade é que algures no tempo nos esquecemos do que significa ser criança e da sua principal obrigação: brincar. Hoje tenho crianças em consulta que não sabem escolher uma brincadeira, que não sabem dizer qual o seu jogo preferido ou qual a parte da semana que gostaram mais. 

Apesar de termos anos de investigação em educação e desenvolvimento infantil, continuamos a querer a toda a força que as nossas crianças sejam pequenos adultos que obedecem a horários laborais. 

Compreendo e aceito perfeitamente a necessidade de praticar atividades extracurriculares. Aliás, enquanto terapeuta até aconselho diversas segundo o perfil das crianças e comprometo-me a falar deste tema com mais calma futuramente.

Mas temos de nos lembrar que estas atividades, junto com um ATL e uma escola não podem roubar o tempo de exploração de uma criança. Como já aqui disse, a criança aprende a explorar o ambiente, e esta estará altamente condicionada se  não lhe for permitido sair para o meio envolvente.

Outro problema prende-se com a formação da personalidade da criança. A criança precisa de não fazer nada. Este tempo é fundamental para que ela aprenda a tomar decisões sobre o que quer fazer. É preciso deixar as crianças aborrecerem-se para que estas mesmas crianças aprendam do que gostam de fazer e o que gostam de explorar, sem que isto lhes seja imposto por um horário rígido e sem tempo para ela própria.

Ainda, é impossível pedirmos a crianças que aprendam quando o cérebro delas está constantemente em esforço. A nós adultos acontece o mesmo. Quando temos um dia inteiro de frente para um ecrã torna-se altamente difícil estar concentrado e ser produtivo e nós já temos mecanismos que nos permitem lidar com esse tipo de frustração. Mas se para nós é difícil, imaginem para uma criança que ainda está a aprender a regular-se.

Sei que as obrigações do quotidiano e dos nossos horários condicionam os das crianças. Mas vamos permitir que as crianças tenham o direito a ser crianças, ou teremos uma geração de adultos que não vai compreender o quão bom é brincar.

5 Tópicos sobre a importância das rotinas

A altura de regresso às aulas implica muitas mudanças, sobretudo quando comparado ao período de férias. Este período para os adultos, nomeadamente para os pais, costuma resumir-se a duas ou três semanas. No caso das crianças contudo, estas estão de férias durante três meses. Se é verdade que durante esses três meses as crianças estão nas mais diversas atividades, como colónias de férias, acampamentos, workshops, entre outros, é também verdade que o seu horário e preocupações se alteram por completo. Ou seja, não existe a mesma preocupação com horas de sono, com trabalhos de casa, atividades extracurriculares ou mesmo com o stress base da aprendizagem e dos testes.

Por isso, basta-nos a nós pensar qual seria a sensação de voltar ao trabalho após três meses de férias para percebermos como este mês de regresso é ao mesmo tempo empolgante e assustador. Sim, empolgante, porque da mesma forma que poucos adultos acham estimulante estar três meses sem rotina, a maioria das crianças também quer regressar às aulas, às rotinas, aos amigos e aos professores. No entanto, é claro que é uma altura de maior tensão, por ter de perceber que certos hábitos de férias, que quase que já são rotinas, têm de ser alterados.

Para conseguirmos entrar neste novo ano letivo da forma mais positiva possível e para conseguirmos ajudar as nossas crianças a fazer o mesmo, ficam aqui 5 tópicos sobre a importância das rotinas neste regresso às aulas:

  • Confiança e segurança
    Desde bebés que exploramos o mundo que nos rodeia. Para compreendermos então este ponto, vamos também tentar-nos colocar na mesma posição que eles: se estivéssemos num ambiente que não conhecíamos e este estivesse constantemente a mudar, como nos sentiríamos? É verdade, a rotina é a base e o retorno que a criança tem do envolvimento que ainda está a conhecer. Assim, mantendo as rotinas estamos a transmitir um sentimento de segurança, que lhe dará a confiança necessária a novas explorações e aprendizagens.
  • Diminuição da tensão e da negociação
    Já todos os pais viram este filme. A criança acorda e liga a televisão, chega a casa e vai jogar no tablet. Enfim, toda uma lista de opções que existem nestes momentos e que frequentemente roubam tempo a tarefas que têm mesmo de ser feitas. Depois, na altura em que os pais tentam direcionar para uma das tarefas começa o período de negociação que frequentemente acaba em momentos de maior tensão. Quando existe uma rotina pré-estabelecida, e que compreenda os momentos de lazer também, é muito mais fácil de direcionar a criança para o que precisa de ser feito, relembrando que, caso siga o estabelecido, terá tempo para brincar e para descontrair. Claro que é mais fácil escrever, neste caso, do que aplicar, mas existe uma variedade grande de apresentações de rotinas, que até podem ser feitas em família. Dentro de em breve existirá um outro texto com ideias a fazer em família neste tópico.
  • Rentabiliza tempo
    Uma vez que as rotinas estejam incutidas será claro que não se perde tempo a pensar o que se faz primeiro: se os trabalhos de casa ou tomar banho; se jantar ou ver televisão; se tomar o pequeno-almoço ou vestir primeiro. Todo este tipo de escolhas podem e devem ser previstas anteriormente e manterem-se com regularidade. Caso tal aconteça vai ser possível, tanto para pais como para crianças, antever as diversas tarefas a fazer, começando a rentabilizar tempo à medida que estas se tornem automáticas.
  • Responsabiliza a criança
    Claro que é uma questão que se deve adaptar à idade da criança e que vai aumentando à medida que esta cresce, mas a realidade é que se as rotinas se mantiverem, a criança vai integrando as mesmas como parte segura do seu dia-a-dia. Desta forma, quando for crescida o suficiente, começará a ser capaz de realizar parte destas rotinas sozinha, como vestir-se, fazer a cama, lavar os dentes, pôr a louça do pequeno-almoço no lavatório e aí por diante, até ser completamente autónoma. Este caminho pode ser falado e preparado de forma a que pais e crianças trabalhem em conjunto para a autonomia. Por exemplo, por período ou por semestre a criança pode escolher uma tarefa para passar a fazer sozinha. Mas atenção, convém que estas tarefas sejam escolhidas de forma criteriosa e que se preveja o tempo que leva a criança a aprender a fazer estas tarefas sozinha, para que não se torne em fonte de stress.
  • Adapta-se ao quotidiano de cada família
    Apesar de existirem tarefas que são idênticas para todas as crianças e para todas as famílias, a verdade é que cada criança, cada família e cada escola tem um funcionamento próprio. Aliás, dentro da própria família existem alturas em que é possível existir maior flexibilidade e outras em que as rotinas devem ser mais rígidas. Tudo pode depender também da rede social de apoio, que falaremos em breve. Como tal, a rotina não é uma estrutura fechada, mas antes algo que deve ser adaptado no sentido de ajudar a família.

 

Acima de tudo, importa não esquecer que a rotina é algo que deve orientar o quotidiano, e que por isso mesmo deve ser facilitador para a família e não o contrário. Por isso, aproveitem este regresso às aulas.

 

Que seja um excelente ano!!

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Sobre

Sou uma psicomotricista licenciada pela FMH e com mestrado feito no ISRP, em Paris. Passando à frende das formalidades e do currículo, sou apaixonada pelo trabalho com crianças. Não só com crianças, mas com as suas famílias e escolas (e todos os outros contextos). No meu ver, cada família é uma história própria e é para mim um privilégio e um orgulho poder fazer parte dessa história. Nesta página vou deixar diversas reflexões feitas por mim e o mais fundamentadas possível, não só na minha experiência clínica, como também pelas mais diversas referências que procurarei para tornar cada reflexão mais rica. Convido-vos sempre a partilhar a vossa opinião e a vossa história, para mais do que um blog sobre educação, este espaço funcione como um ambiente seguro para um diálogo sobre o que mais nos apaixona.

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E-mail: amdagf@gmail.com

É um prazer estar aqui convosco.